terça-feira, 12 de junho de 2007

Porque não tratamos nossos esgotos?

São muitos e terríveis os "efeitos colaterais" do chamado desenvolvimento. Alguns mais óbvios outros menos, alguns mais alarmantes, alguns mais urgentes. Enfim, todos sabemos quem são eles e (aleluia!) parece que o mundo está despertando e dando a devida atenção para eles.

Há um, entretanto, que já não deveria mais fazer parte do rol de problemas. Me refiro aos efluentes (esgotos) urbanos, um dos efeitos mais visíveis e imediatos (e mais mal-cheirosos!) da civilização.

Eu costumo viajar bastante pelo país e sou testemunha do estado deplorável em que deixamos todo e qualquer curso d’água que se aventure a atravessar um aglomerado urbano. Das cloacas fétidas em que se transformaram os grandes Tietê e Pinheiros, ao atravessar a megalópole paulista, até os mais simplórios córregos que recebem os esgotos das pequenas e médias cidades. Para não falarmos no mar (Ah, a moribunda Baía de Guanabara!), sobretudo em pequenas enseadas e baías das orlas urbanizadas.

Me deixa perplexo a nossa passividade (enquanto população) em conviver com isso. Sobretudo porque as tecnologias necessárias para que os esgotos deixem de ser problema já existem há muito tempo.

Os técnicos em saneamento não me deixam mentir. Temos tecnologia para TRATAR ESGOTOS em qualquer condição, nível e escala! Pelo mundo todo encontramos exemplos (até mesmo alguns aqui no Brasil) de sistemas de tratamento efetivos e eficientes que, além de garantirem o retorno das águas razoavelmente limpas ao ciclo natural, ainda geram subprodutos economicamente (e ambientalmente) interessantes, como compostos fertilizantes.

Por que então o tratamento não é uma prática largamente utilizada? Porque temos que conviver com a degradação dos nossos belos e generosos rios (e baías etc)?

Vocês sabem o que é o Piscinão de Ramos? é uma enorme piscina pública abastecida com água límpida obtida sabem de onde? Da vizinha Baía de Guanabara! Por que para isso o tratamento é viável? Porque era interessante para os políticos "agradar" aquela comunidade em troca de votos!

Este é o verdadeiro problema. A construção de estações de tratamento é decisão POLÍTICA, e não TÉCNICA. Um piscinão se constrói em meses, a tempo de quem o construiu angariar o benefício do voto. Um sistema de tratamento na escala de uma cidade é ação de longo prazo, que não se concretiza dentro de um mandato. Por isso ninguém começa. Quando começa, como no caso do "Programa de Despoluição da Baía de Guanabara", que já passa de uma década, o que vemos é um festival de desvios e superfaturamento vergonhoso. Resultado que é bom nada!

Por que será que nunca vi nenhuma manifestação pública EXIGINDO tratamento de esgotos?


Por que não nos mobilizamos a vamos prá rua "abraçar" a baía, o Tietê?

Porque não lotamos as Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais cobrando de nossos representantes ações nesse sentido?

Por que não "infernizamos" a vida dos prefeitos e secretários?

Por que?




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Texto de Ivo Fontan

7 comentários:

Idéia Legal disse...

Ivo,

Os esgotos, não só aquele que sai da nossa casa, mas também aqueles produzidos por indústrias, é sim um problema de calamidade pública. Além de poluir o meio ambiente é fonte de doenças para o ser humano. Acredito que essa situação chegou neste ponto pelo aumento acelerado e desordenado da população e das indústrias, além dos maus governantes que por muito tempo fizeram vistas grossas. Vamos lembrar que antigamente as pessoas nem tinham esgoto encanado e jogavam seus detritos e despejos nas ruas ou em valas. A situação sanitária da população era péssima e diante disso era necessário tomar uma atitude, então contruíram as redes de esgoto. Bom, a verdade é que nós cavamos o nosso próprio buraco. Um exemplo disso é o aquecimento global, uma consequência de nossas atitudes no passado. Ele não surgiu da noite para o dia. Foram anos e anos de descaso com o meio ambiente. Hoje as pessoas estão mais conscientes e estão procurando formas de reaver o tempo perdido. Vou deixar um pedido, já que um ano de eleição se aproxima. Pesquise sobre os seus candidatos e vote consciente. Isso vai fazer a diferença! Um abraço, Renata.

Ivo Fontan disse...

Cara Renata
Antes de mais nada obrigado pelo comentário.
O que eu quero destacar com o texto é o fato de que o problema ESPECÍFICO do ESGOTO DOMÉSTICO, em qualquer ESCALA, já tem solução tecnológica acessível. É só questão de VONTADE POLÍTICA.
Diferentemente da questão do LIXO, das águas PLUVIAIS (que também carreiam lixo, sedimentos etc) e dos EFLUENTES INDUSTRIAIS, que dependem de muitas variáveis (portanto são problemas mais complexos), o ESGOTO é um problema de solução SIMPLES, com tecnologias TOTALMENTE conhecidas e disponíveis. Não há mais justificativa hoje para cidade nenhuma "despejar" todo seu "cocô" no curso dágua mais próximo. É descaramento e falta de seriedade dos políticos e passividade e omissão nossa, enquanto população!
Quanto a votar consciente, minha amiga, desculpe, mas a única possibilidade neste aspecto é não escolher nenhum deles, pois com o "sistema político-partidário" vigente, só CHEGA A SER CANDIDATO QUEM NÃO PRESTA. Os HONESTOS não chegam ao fim do processo, enojam e caem fora no caminho!
Claro que exagero, mas é quase assim!

Ana Cláudia Bessa disse...

Ivo,

no Recreio acabaram de construir duas centrais de tratamento de esgoto. Pois pasme! Novíssimas, elas já nao dáo vazao ao esgoto a que se destinam porque simplesmente o projeto é de 10 anos atrás.
Agora me explica porque nao foi atualizado antes de executado?
A quem interessa nao atender a demanda?
Aquem interessa a demora na aprovacao dos projetos e a quem beneficia o tempo gasto nesta aprovacao?
A quem interessa?

Ivo Fontan disse...

Ana, há uma piadinha sarcástica sobre políticos que diz assim:
Um parlamentar brasileiro está na casa de um colega português, uma bela quinta no Algarves. Admirado com a propriedade pergunta: - “Como o colega consegue manter esta residência com os subsídios de parlamentar? O português, abrindo a janela, responde: - “O colega está a ver aquela bela rodovia? Pois bem, custou 100 milhões de euros, mas...(dando um sorrisinho maroto e piscando um dos olhos) na verdade foram só 95, ó pá!
Tempos depois os dois se encontram na mansão do brasileiro no Lago Sul, em Brasília. Espantado com as lanchas, as quadras de tenis, as piscinas etc, o luso faz ao colega a mesma pergunta. Abrindo a janela o “nosso” parlamentar responde apontando para fora: - “O colega está vendo aquela rodovia?” - “Mas que rodovia, ó pá?”, responde o luso olhando para todas as direções. - “Então...” diz o colega com um sorrisinho satânico nos lábios!

Tá respondida sua pergunta, Ana?

Ana Cláudia Bessa disse...

Está, ó pá!

Quanto a infernizar nosso políticos, deixa minha conexão se restabelecer que vamos mandar e-mail para perturbar estes safados.
Não só para eles, mas para programas de TV, jornais, alguém, algum dia, vai se interenssar em se unir a nós.

Mercedes disse...

Ivan,
Parabéns pelo artigo!
Concordo com você quando disse no seu comentário anterior:
"o ESGOTO é um problema de solução SIMPLES, com tecnologias TOTALMENTE conhecidas e disponíveis. Não há mais justificativa hoje para cidade nenhuma "despejar" todo seu "cocô" no curso dágua mais próximo. É descaramento e falta de seriedade dos políticos e passividade e omissão nossa, enquanto população!"

Eu tenho visto isso de perto aqui em Florianópolis/SC. Descaramento total...
Fiz um blog apenas para divulgar tecnologias acessíveis com manuais livres para download gratuito, pra não haver a desculpa do desconhecimento. Pois bem, só na categoria Tratamento de Esgoto tem 12 posts. Deixo aqui o link para quem quiser visitar:
http://viversustentavel.wordpress.com

Abraços.

Ivo Fontan disse...

Valeu, Mercedes
Vou visitar com o maior prazer.