quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Filhos prá quê? Parte 1

É impressionante como este assunto tem chegado até meus ouvidos. Uma escritora francesa lançou um livro chamado “40 motivos para não ter filhos” e é sucesso de vendas. Um outro professor canadense falou que uniões sem filhos são mais felizes e fazem bem ao planeta. E sabem de uma coisa: eles estão certos!

Essa foto aí do lado é de um operador da bolsa, estressaaaaado e me lembrou demais algumas horas que eu mesma tenho vontade de furar meus olhos...rs...dar com a minha (a minha, tá, gente...) cabeça na parede... Tem horas que confesso, me sinto esgotada, cansada, me perguntando onde fui amarrar minha égua...rs


Nossa sociedade empurra as pessoas a terem filhos. A maternidade é “vendida” como a única forma de realização plena de uma mulher e ai daqueles que resolvem remar contra a maré. Eu mesma, como já contei aqui, fui casada anteriormente e não tive filhos mesmo depois de quase 10 anos de casamento. E ouvi muitas diretas e indiretas a respeito. Mas eu era muito nova e queria viver outras coisas antes de ser mãe. Acreditem, nunca tive isso como sonho.

Tive meu primeiro filho aos 32 anos e achei perfeito prá mim. Curti, viajei, trabalhei e fiz tudo o que tinha vontade de fazer sem ter que me preocupar com o “leite das crianças”... tanto que pude, inclusive me dar o luxo de parar de trabalhar para ficar com eles nos primeiros anos. Afinal, trabalho desde os 17 anos, me achei no direito de fazer o que estava com vontade. E parei mesmo? Que nada...rs...eu não tinha idéia do que era trabalhar. Tem gente que acha que mulher que fica em casa não trabalh o...Lêdo engano... Quer trocar? rs
Por outro lado, foi maraaaa! rs (gente eu não vejo sempre este programa mas o Ítalo Rossi é mara...rs...). Eu dormi tudo que tinha vontade na gravidez, tive tempo de montar quarto, comprar roupinha, acordar tarde e não passei pelo estresse de ter que deixar filho pequeno na mão dos outros, seja creche, babá, empregada, avó ou o escambal, para poder trabalhar. Não me arrependo em nada. Foi mara mesmo. Ainda é.
Mas vamos combinar que tem gente que , de fato, não nasceu para ter filhos.
Filho muda tudo na nossa vida, para o bem e para o mal. E por mais que eu AME ser mãe, tenho plena consciência e uma pontada de decepção sobre as coisas românticas que sempre ouvi a respeito da maternidade e não se concretizaram. E entendi, mais do que nunca, quando ouvi de muitas mulheres que eu só ia entender isso ou aquilo quando fosse mãe...

Meu corpo mudou, meu tempo encolheu, minha culpa aumentou e por mais que meu marido seja um pai presente e participativo, a carga mais pesada sobra prá mim, assim como para a maioria absoluta das mulheres.

Sabe aquela frase que sempre ouvimos que filho não segura casamento? É a mais pura verdade e é ainda pior: se o casamento não estiver bem estruturadinho, eu diria que filho cria um verdadeiro abismo entre o casal. Vi muitos casamentos que se acabaram logo depois dos filhos. E aí vem uma das decepções: filho cria a família, mas ao mesmo tempo desestrutura. Afinal, todas as atenções da mãe, agora são do filho. Não temos hora de dormir, hora de namorar, e mal temos tempo de cuidar de nós mesmos, tamanha a atenção que dedicamos ao filho recém-chegado.

Criança demanda atenção, paciência, dedicação, fora de qualquer padrão ou pré-conceitos que tenhamos sobre o que essas palavras significam. E aí, me lembro de outra vez o assunto sobre as agruras da maternidade: tem hora que a gente explode e vê um monstro dentro da gente e se sente péssima por isso. Eu já soltei meus bichos algumas vezes também. Me sinto culpada às vezes. Às vezes, não porque isso resolve o problema na hora e é um alívio. Não somos de ferro e criança às vezes esgota tudo que a gente fica todo dia tentando aprimorar para ser uma mãe ou um pai melhor, paciente e compreensivo.

Fico pensando como era antigamente com 10, 15 filhos dentro de casa. Vocês acham que aquela mãe e aquele pai, tinham tempo de dar comidinha na boca de cada criança? E vestir, dar banho, pegar no colo, acalentar uma manha sem motivo aparente? Ficar horas na porta da escola convencendo o filho a entrar?

Hoje, na nossa modernidade, queremos dar tudo para um filho e acabamos ficando esgotados, física e mentalmente com apenas 1 ou 2 filhos (ai, meus sais...rs). Será que isso é o certo? Será que darão, de fato, valor no futuro? Olhe para si mesmo e para sua relação com seus pais: é a mesma relação que gostaria que existisse entre você e seus filhos no futuro? Tem gente que sim, mas tem muita gente que não...

Onde estamos errando? Onde estamos exagerando?

continua amanhã
________________________________________________________________________________ Ana Cláudia Bessa

8 comentários:

Anônimo disse...

ana,
vc acha mesmo q a sociedade "empurra" a mulherada a ter filhos??
mesmo com essa onda toda de mulher trabalhando fora, tendo bb cada vez mais tarde, cuidando da pp carreira?...
sei não...
acho q é mais a questão do "status" padrão comercial de margarina.
explicando [tentando] melhor: acho q a sociedade tenta vender o padrão comercial de margarina, onde a mulher aparece (não necessariamente nessa ordem):
-feliz
-equilibrada
-com UM CASAL de filhos
-magra
-com roupa da moda, cabelo e aparência impecáveis
-com a casa arrumada
-saindo para trabalhar
-com cara de satisfeita
-com marido feliz, participativo, bem-sucedido
-com TODA sua vida LINDA-MARAVILHOSA-EQUILIBRADA
cara, isso é q não existe!!! tudo isso ao mesmo tempo NÃO EXISTE! rs
é lógico q mais de um ou dois filhos nessa história toda não vai encaixar, né?... às vezes, nem um...

por outro lado, acho q cada época tem seus pontos positivos e negativos. acho, sim, q qdo se tinha 10 ou 15 filhos (exagerando, né?!), a convivência era pacífica, atenciosa, não-solitária, com momentos até individualizados (em termos de atenção), porque não? afinal, a mulher/mãe não precisava trabalhar fora, não tinha uma carreira pra cuidar, o trânsito não existia, podia-se brincar na rua, não se discutia segurança, os horários eram mais flexíveis, existiam menos compromissos (de toda ordem: na escola, profissional etc), os mais velhos zelavam pelos mais novos...
era tudo tão diferente, q não dá pra comparar, talvez, vai ficar muito distante tudo.
só acho q, atualmente, o problema REAL é o nível de expectativa q se tem qdo se tem filho, tendo q dar conta de todo esse longo pacote-padrão comercial de margarina...

eu, particularmente, adoraria ter mais um filho (tenho 3, vc sabe). pq filho, pra gente aqui em casa, é família, é laço, é relacionamento, é amor, é comida na boca, mm tendo jornada tripla!
claro, filho tb é gasto, é cansaço, é preocupação... mas é muito mais positivo do q negativo, e, te garanto, não é pressão da sociedade, não: esse outro "extremo" tb é criticado, e muito!!
bjs (e desculpe pelo looongo post!),
ana b.

Michelle Müller disse...

Ana...

Báh guria assinei embaixo agora!! Eu demorei para ter meu pequeno e era sempre aquela pressão louca, quando namora, pergunta quando noiva, noivou ai perguntam quando vem o casamento, ai tu mal chega da lua-de-mel e já estão te perguntando quando vem os herdeiros rsrsrs. Eu fiquei nove anos casada antes de engravider e quando resolvi era porque nós queríamos e não para antender a pressão dos outros, acredito como tu que estamos meio que sem medida, colocando muita expectativa na maternidade e que não é para todos não, nós lutamos tanto para nos libertarmos das amarras sociais e muitas de nós acabam entrando nessa de ter filhos só por pressão e ai quando se dão conta já não tem jeito mesmo, porque filho é pra sempre!
estrelinhas coloridas...
Mi
p.s. guria vai rolar comentários em psot antigos... tô xeretando no arquivo, amei teus textos....

João Carlos disse...

Ana Cláudia:

A primeira Ananônima que comentou, matou metade da charada: a "mulher do comercial de margarina". Como diria o Padre Quevedo: "Isto nón ecsiste!"

A segunda parte é meio desagradável de comentar... Mas por que você acha que Mamãe Natureza fez o sexo ser tão interessante?...

Mudando de foco, não de assunto, você pergunta como era na época em que as famílias tinham mais de 10 filhos... A resposta é simples: um inferno! Meu pai era o penúltimo de 18 irmãos (somente 13 sobreviveram à infância - devidamente registrado que meu pai nasceu em 1909 e meu avô foi Oficial da Marinha Imperial...) e foi criado, na prática, por uma das irmãs mais velhas. A vida não era o corre-corre que é atualmente, em compensação não havia todo o aparato tecnológico para torná-la mais fácil.

E, para encerrar por aqui, quanto ao trecho onde você confessa que, de vez em quando, perde as estribeiras, eu recomendo ler "Uma vida para seu filho" de Bruno Bettelheim, cujo título original é bem mais explicativo: "Parents good enough". Aí você vai ver que é "comercial de margarina" de novo...

Jacque disse...

Ai Aninha, você descreveu tudo que estou sentindo, hoje principalmente.
Estava tão sem paciência que levei os meninos cedo pra escola e fui tirar umas horas de lazer na fila do banco!! Pasmem! E olha que eu detesto filas...
Eles são lindos, fofos, a razão de nossa existência mas, tenho sentido tanta vontade de ter um tempo só, sem nada, com silêncio...
Mas como diz o poema: Filhos melhor seria não tê-los mas, se não tê-los como sabê-lo...
bjos

Ombudsmãe disse...

Não sei. Acho que nem tanto lá, nem cá. Dizer que filho realiza a mulher, é balela. E os pobrezinhos nem devem viver com este peso. Já pensou, nascer tendo a impossível missão de "realizar" um ser humano? Mamãe que faça terapia.

Agora ser contra a maternidade e fazer campanha contra ela eu já acho questionar o direito de escolha de cada um. Que criar filhos não é fácil, todos sabemos. Mas qual a grande empreitada da vida, que é fácil? Carreira? Os micos que a gente paga, de longe, são piores que birra de qualquer pimpolho.

A verdade, NO MEU CASO, é que meus filhos nunca me prenderam. Eles me libertaram. Mudei radicalmente minha vida depois que eles vieram. E sem dúvida alguma, pra muito melhor. Foram decisões difíceis, mas necessárias. E vamos parar com esta terapia de grupo, hahaha.

Bjs

Cristiane A. Fetter disse...

Para mim é simples: A mulher tem que querer ter filhos, ninguém pode influenciar nesta decisão, nem o pai da criança (a não ser que a ciência descubra uma forma do homem ter a gestação dela).
Somos nós que decidimos como, quando e porque.
Eu também passei por esta onde de terrorismo dos amigos e da família e eu os deixava falar, era bom para eles, os desestressava, risos.
Chegou ao absurdo do meu pai começar a trazer para mim reportagens e pesquisa que mostravam os riscos de uma gravidez após os 30 anos!
Eu só tive meu primeiro filho depois de 11 anos de casamento, com 34 anos de idade e como a Ana Cláudia disse, também foi ótimo para mim.
Estava mais madura, mais tranquila, já tinha vivido tudo o que eu queria, estava mais equilibrada, mais "mansa", mais caseira, mais preparada para fazer o ninho. Eu optei por não trabalhar para poder engravidar e optei novamente em não trabalhar no primeiro ano de vida dele.
Hoje estou sofrendo nova pressão, mas desta vez do marido, para ter outro filho e os amigos também começaram a catequese do irmãozinho do Dudu.
Nós temos o poder de escolher, mas também o de exigir todo apoio que precisamos, pois como já escrito nos comentarios anteriores, toda a carga cai para cima da gente (até porque somos assim mesmo, queremos fazer tudo não é?).
Há muito tempo atrás ouvi uma frase que eu gosto muito: Os filhos são criados para o mundo.
Abraços

Ana Cláudia Bessa disse...

Gente...gente...quantas reflexões importantes...ai, nem vou responder, vou tentar compilar tudo e escrever um post.

Quantas nuances tem a maternidade...

Sandra Goraieb disse...

Ana, fazia um tempinho que não passava aqui pelo seu blog. Li seu texto, sabe o que ele é? O relato de uma pessoa normal. Fui mãe velha, aos 40enta, enta, enta. Mãe de filha única. Também passei noites em claro, também me irritei, ri, chorei, me perguntei se estava fazendo a coisa certa zil vezes. Somos só pessoas, gente normal.
preciso dizer que não tinha aspirações extrabrilhantes da maternidade e talvez foi por isso mesmo que ela me surpreendeu. Sou feliz por ter acontecido para mim, aquela felicidade simples, sem precisar grandes extrapolações mentais nem justificativas mirabolantes.
Certa de saber que não sou perfeita, que estou bem longe da "magra da margarina" e da mônaca zen e que a vida de verdade não é uma sequência de fogos de artifício e festa todo dia.
Quer saber, somos só mulheres, só mães, só gente e acho que estamos bem assim.
Um grande abraço. Ler este blog é muito bom sempre.