quinta-feira, 21 de agosto de 2008

O que é comércio justo?

Eduardo Knapp
CYRUS AFSHARDA REPORTAGEM LOCAL -

Por que esta manga é mais cara?
A manga Tommy normal é vendida pelo produtor a R$0,50 o quilo, e o consumidor final paga R$1,65; no "comércio justo", o produtor vende a fruta por R$1,22, que chegaria ao consumidor por R$ 4,03 o quilo.

Um ilustre desconhecido por aqui, o dito "comércio justo" começa a pingar nas gôndolas do país.

Você topa pagar um pouco mais por um produto feito sem danos à natureza ou exploração desumana do trabalho, sabendo que sua compra ajuda a desenvolver comunidades pobres? Milhares de consumidores no mundo topam. São a base do dito "comércio justo".

Muito mais conhecido na Europa, o "comércio justo", ou "solidário", ou ainda "ético" é um movimento social e um sistema internacional de comércio, que busca atenuar desigualdades nos países pobres, por meio da venda de produtos feitos em padrões sustentáveis.

No Brasil, produtos com o certificado do comércio justo ainda são raros em supermercados. Mas isso pode mudar a partir desta semana, quando serão lançadas as normas nacionais desse comércio. Por aqui, o sistema começou a ganhar algum espaço no final dos anos 90 e só se tornou mais estruturado a partir de 2003. A proposta para normatizar o comércio justo no Brasil, que será levada agora, no dia 19, a um encontro internacional sobre o tema, no Rio, dá a ONGs e empresas a competência de certificar produtos, orientadas pelo Inmetro. Ela foi desenvolvida por Senaes (Secretaria Nacional de Economia Solidária), Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e outras entidades da sociedade civil. Surge quase dois anos depois da criação de suas linhas gerais.

"Quando a coisa é muito "democrática", feita a 20 mãos, o processo se arrasta", diz Vanucia Nogueira, 47, superintendente do Centro de Excelência de Café do Sul de Minas, que trabalha com pequenos agricultores na região de Varginha.Enquanto não vão para as gôndolas daqui, produtos nacionais de comércio justo já certificados internacionalmente são exportados para a Europa, como manga, suco de laranja e café. Essas mercadorias são vendidas pelo "preço justo", isto é, suficiente para que pequenos produtores consigam manter tanto um padrão de vida digno quanto os modos tradicionais de produção.

Um exemplo é o café. Em Minas Gerais, uma saca (60 kg) comum custa por volta de R$ 250, de acordo com o Centro de Excelência de Café do Sul de Minas. Já uma saca da produção "justa" rende ao pequeno produtor R$ 310, quase 25% a mais que o preço de mercado.Isso é financiado na outra ponta da cadeia, pelo consumidor. A diferença entre o preço comum e o "justo" varia segundo o país e o produto.Em São Paulo, o Sam's Club vende o café de comércio justo por R$ 7,38 (250 g), 17,6% mais barato que um café gourmet (R$ 8,96). Mas bem mais caro que um café comum (R$ 2,30). Apesar dos preços altos, o mercado ético mundial cresceu a uma taxa anual média de 40% nos últimos cinco anos. Em 2007, cresceu 47% e movimentou 2,3 bilhões de euros, segundo a Fairtrade, entidade que reúne 23 certificadoras internacionais e produtores da América Latina, Ásia e África. As certificadoras atestam para o consumidor que os produtos seguem os padrões do sistema.

"O comércio justo oferece aos consumidores uma poderosa oportunidade para assumir a responsabilidade pelo que compram. Cada vez mais pessoas se preocupam com a procedência da mercadoria e querem saber se os produtores envolvidos obtêm remuneração justa", diz Verónica Sueiro, coordenadora da Fairtrade.

6 comentários:

Tricia disse...

a questão é: esse negocio tá sendo bem estruturado? Porque tu sabe que aqui nesse país, isso pode muito bem virar motivo de roubo, aumento de preço, e quando a pessoa compra pensando que está ajudando o outro, na verdade, tá enriquecendo meia duzia de sabidinhos...

é pra se pensar...

Ana Cláudia Bessa disse...

Pois é...
Acho que este é o problema também das empresas "verdes", por exemplo.
Corre nos bastidores que toda empresa quer ser verde (claaaaro) mas na hora de investir,sempre não tem orçamento...
Mas para publicidade sempre tem...

e aí a gente fica no meio sem saber quem é sério ou não...

Ana disse...

Na teoria, perfeito...

Mas no Brasil, com a mentalidade de "tirar vantagem de tudo", isso com certeza não daria certo...

E os produtores seriam os maiores prejudicados...

Sou a favor das feiras de produtores, especialmente de orgânicos... aqui em Pira já tem uma, pequena, mas muito bem frequentada... os próprios produtores se organizam e vendem seus produtos a preços que eu considero justos - menores do que os dos supermercados, mas com um lucro bem maior aos produtores!

João Carlos disse...

Com todos os "perigos" apontados, eu acho a iniciativa excelente. Eu conheço os dois lados da moeda: o do produtor que ganha pouco e paga um monte de impostos, e o do consumidor (e um "privilegiado" que conhece o preço, digamos, "de produção" e o "preço de prateleira". E, como minha mulher já teve uma loja, entendo também a posição do varejista.

Porém, o maior problema parece estar sendo esquecido: o transporte do produto do local de produção para o ponto de venda. Parece uma coisa banal, mas, nesse trajeto, há um enorme "ralo aberto" que engole cerca de 30% de tudo que é produzido...

Ana Cláudia Bessa disse...

Eu penso como você João. Acho que o importante é já haver esta iniciativa. Até por isso postei a matéria aqui. Ou seja, saímos da inércia com relação à isso. Eu comecei a ter contato com isso a partir do desenvolvimento das camisetas do Futuro do Presente ( www.futurodopresente.com.br ) . Confesso que ainda tenho meus receios quando à seriedade de algumas propostas mas estou praticando isso com as camisetas e omo você falou, um grande vilão é o transporte, só adicionaria que o transporte em todos os níveis (produtores-revendas/revendas-clientes) está colaborando bastante para os acréscimos no preço final dos produtos.

João Carlos disse...

Olha, Ana Cláudia, eu tenho mais medo ainda das propostas sérias serem desvirtuadas. Diziam sobre o político Saturnino Braga (quando foi Prefeito do Rio de Janeiro) que ele foi "o homem que desmoralizou a honestidade"... (não roubou nunca, mas não fez nada pela cidade...)

Melhor uma iniciativa correta, com brechas para desvios (que sempre podem ser corrigidos), do que uma boa idéia que nunca sai do papel...