segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

BRINCAR POR BRINCAR

Eu devia ter uns nove ou dez anos (isso faz mais de quarenta!). Era o "dia das crianças" e, neste ano, um grande show aconteceu no teatro João Caetano, promovido pela Rádio Nacional. Quase todos os grandes artistas do cast da rádio estavam lá assim como os principais apresentadores, que se revezavam apresentando os cantores, intercalados com atrações circenses e sorteio de brinquedos para as crianças. Eu estava lá, e fui um dos sorteados. Ganhei um DIABOLÔ!

Sim, acreditem vocês ou não, esse brinquedinho que chegou por aqui como a grande "febre" dos últimos meses, já esteve por aqui há mais de quatro décadas. Me lembro bem de como era divertido "dominar" aquele carretelzinho rodopiando na cordinha e tentar fazer uns malabarismos atabalhoados que rendiam horas e horas de diversão pura.Todo mundo tinha um diabolô e, juro, todo mundo brincava. Apenas brincava!

Leio nos jornais que o diabolô está de volta. Mas não é, como antigamente, apenas um brinquedo". Acreditem, ele é considerado um MALABAR DE COMPETIÇÃO! Os primeiros diabolôs chegaram e já trouxeram com eles: regras; "manobras radicais" (todas obviamente com nomezinhos em inglês); competições; campeões; revistas e publicações especializadas; "equipamentos especiais" para sua prática; sei lá mais o quê!!!

Gente, quequéisso? que merda! TUDO tem que virar competição?

Relembro outros "brinquedinhos" antigos, lá dos anos 50, 60, que já tiveram o mesmo destino: O bambolê; ioiô; bilboquê (sabem o que é?); patins; corda, etc. Até a centenária e prosaica bicicleta! Não há uma criança hoje em dia que se contente em simplesmente "andar de bicicleta". Todos já se iniciam, aos sete, oito anos, nas "manobras radicais".

Até o futebol. Raramente vemos hoje crianças "jogando pelada". Eles estão em "escolinhas", aprendendo com pretensos "professores" os truques para se tornarem futuros "fenômenos"!(sobre o futebol eu prometo falar em outro post). Vocês, colegas e leitores do blog, que têm filhos pequenos, pensem nisso e, ao comprar brinquedos para seus filhos, o façam estimulando-os a simplesmente BRINCAR!

__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

7 comentários:

Ana Cláudia Bessa disse...

Ai, Ivo...isso prá mim, também é o fim.
E é um problema porque quem não educa seus filhos para COMPETIR está colocando uma vítima no meio de uma sociedade infantil JÁ SELVAGEM.
Até porque, se fosse competir por competir, ainda vá lá...mas os pais educam para competir e VENCER SEMPRE.
Eu tento muito tirar as crianças deste universo, por isso escolhi muito criteriosamente a escola. Faço questão de nem cogitar escolas caras, porque não quero as crinaças convivendo com outras que pertencem a um universo completamente diferente do delas e do que queremos para elas. Pode ser a melhor escola do mundo, não queremos.
Parabéns pelo texto!
Hoje em dia, é um desafio!

renata disse...

Olá Ivo, gostei muito desse post e concordo plenamente com você. Hoje as coisas estão bem diferentes. Achop que é resultado do capitalismo selvagem que trouxe junto a era tecnológica e o desemprego. Até a criança já pensa como os adultos que devoram-se um ao outro. Esse é o espírito da competição. Não importa ser bom e sentir prazer no que faz, O que impera é a lei dos mais fortes (poderosos) que engolem os mais fracos. Coitado dos fraquinhos...

Carla Beatriz disse...

Olá Ivo,

Com certeza, as crianças de hoje em dia só querem saber de competir, ao invés de brincar.
Meu filho de 5 anos está participando de uma colônia de férias todas as tardes no clube em que somos sócios e toda sexta-feira é o dia do brinquedo. Na primeira semana, ele levou um carrinho de brinquedo que ganhou do pai de Natal. Uma ferrari grande de plástico, simples. Ele voltou chateado de lá, porque "ninguém gostou do meu carrinho". Os outros haviam levado Max Steel, Hot Wheels e outros brinquedos caros. Na semana seguinte, ele escolheu os brinquedos mais caros e fascinantes do acervo dele para levar. Desta vez, os coleguinhas gostaram dos brinquedos deles. É a concorrência entre as próprias crianças ... :-/
No outro dia, falei para meus filhos sobre uma quadrinha que eu cantava quando criança e falava no bilboquê. Eles me perguntaram o que era um bilboquê.
Agora, diabolô, nunca tinha ouvido falar ... :-)

Geo disse...

Essa semana reli O Pequeno Príncipe (http://www.bompraler.blogspot.com) e seu texto me fez associá-lo. Quando somos crianças apenas brincamos porque é divertido. Depois que crescemos, temos que achar sentido e valor para tudo. Não o valor verdadeiro, mas o valor monetário ou social. É preciso deixar que as crianças sejam apenas crianças.

Silvia D. Schiros disse...

Ivo, a competição está cada vez mais presente, infelizmente. Em tudo. Pelo menos na escola das meninas parece que tudo é levado de um jeito mais light, e a filosofia é que cada um tem seus pontos fortes e fracos, e cada um faz as coisas "do seu jeito", como eles gostam de frisar: nem melhor, nem pior. O ritmo das crianças é respeitado, e gosto muito disso.

Muito chato quando as crianças querem ter o melhor ou querem o brinquedo igual "porque o outro tem" ou "para fazer melhor do que o outro". Ai, ai... Criança, a meu ver, já é um ser altamente competitivo (quem nunca ficou "competindo" com os amiguinhos porque "meu pai é maior" ou "minha mãe é mais bonita" ou coisa no gênero? risos). Acho importante as crianças quererem vencer, mas sempre respeitando os colegas e, acima de tudo, sabendo perder também. E brincando só por brincar, sem ficarem se preocupando em serem melhores.

Anônimo disse...

olha vencer é sinal de poder mais em uma copetição, voce tem que mostrar que é bom, voce tem que vencer ou pelo menos ter um bom desmpenho

Ana Cláudia Bessa disse...

É anônimo, o mundo é assim mas não tem hora para esta competição começar? Como seres racionais que somos, não podemos ser apenas crianças durante nossos , pelo menos, 5 primeiros anos de vida? Ou devemos nos comportar como animais selvagens que desde o nascimento precisam lutar pela sobrevivência?