quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

OS CARANGUEJOS E A CABEÇA D’ÁGUA II

Dois dias foi o tempo para a proibição de acampamento nas praias ser revogada. Foi exatamente o tempo em que convivi com este personagem fantástico, tendo o privilégio de ouvir parte de suas histórias, ao vivo, de sua própria boca, sentado no chão da varanda de seu casebre, tomando uma batidinha feita por ele com limão colhido ali na hora.

Já na praia armamos nossa barraca a uma distância segura da linha de maré alta (éramos experientes nisso) e nos preparamos para um carnaval inesquecível.
Mal sabíamos o QUANTO seria!

Na tarde do segundo ou terceiro dia em que estávamos na praia, um fato mobilizou todo mundo que acampava na área. De um riachinho próximo começaram a sair para a areia da praia, dezenas, centenas, em pouco tempo, milhares de CARANGUEJOS. Eles circulavam pela areia como se estivessem desorientados, assustando e divertindo as pessoas que, logo logo perceberam que ali estava um petisco facilzinho e que poderia ser a festa daquela noite. Começou uma "catação" frenética.

Num dado momento reparamos que nosso "amigo" (Madame Satã) havia chegado à praia e observava com uma expressão preocupada àquela movimentação extraordinária na areia. Cheguei perto e fui surpreendido com um alerta proferido em tom grave: " Isso aí não é bom sinal..." . Curioso, perguntei-lhe o que queria dizer com aquilo. Madame Satã olhou em volta, para aquela multidão enlouquecida colecionando cada um mais caranguejo do que o outro e mais uma vez disse: "Isso não é nada bom", e acrescentou: "se eu fosse vocês tirava minha barraca daí porque vai vir aí uma CABEÇA D’ÁGUA!"

Sem mais explicações retirou-se, mas, de longe avisou-nos que, se quiséssemos, seu quintal estava às ordens. Por via das dúvidas desarmamos nossa barraca e a trouxemos uns dez metros para cima da faixa de areia.
Nessa madrugada algo estranho acontecia no mar. Deitados nós ouvíamos o barulho das marolinhas típicas da praia do Abrão aumentando gradativamente e se transformando em ondas de verdade. Até que...

Deviam ser umas quatro e pouco da manhã quando a primeira grande onda "varreu" a praia do Abrão!
Barracas foram invadidas e algumas levadas mar adentro. Corre-corre, gritaria, desespero.
Mesmo a nossa barraca, lá longe da água fora atingida. Veio a segunda onda, maior do que a primeira.
E veio a terceira, maior do que as duas primeiras juntas!

Foi uma noite de terror. Milagrosamente só houve prejuízos materiais, mas ao amanhecer ficamos sabendo que estávamos todos ali literalmente ILHADOS. Estávamos simplesmente diante da MAIOR RESSACA QUE O LITORAL DO RIO HAVIA SOFRIDO NOS ÚLTIMOS 50 ANOS.

Mangaratiba, Angra e Parati estavam isoladas. A Ilha Grande então nem se fala!
Quem quiser saber mais sobre este fato pode consultar os jornais da época. Quanto a mim aprendi uma lição e passo agora para vocês: Sempre que observar um comportamento fora do normal, inexplicável, nos seres da natureza, desconfie seriamente de que algum FATO também fora do normal está por vir, e, PREVINA-SE!

Leia a primeira parte deste texto:
http://ofuturodopresente.blogspot.com/2008/01/os-caranguejos-e-cabea-dgua-i.html
_________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

2 comentários:

Paola Oliveira disse...

Isso é para se pensar....

Cristiane Fetter disse...

A natureza é sábia, e mais sábio é aquele que consegue ler seus sinais.
Que história ein Ivo?
Abraços