terça-feira, 30 de setembro de 2008

Professor defende punição severa a aluno, diz pesquisa

25/09/2008 - 08h38
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u448687.shtml
FÁBIO TAKAHASHI
da Folha de S.Paulo

Os professores brasileiros querem punições mais duras aos alunos, na busca por disciplina, aponta um pesquisa nacional feita pela Organização dos Estados Ibero-americanos e pela Fundação SM. Chegam, inclusive, a defender a expulsão de estudantes.

As conclusões estão presentes no estudo "A Qualidade da Educação Sob o Olhar dos Professores", que entrevistou 8.773 docentes da educação básica no país e que será apresentado hoje, em São Paulo.

Do total, 83% defenderam medidas mais duras em relação ao comportamento dos alunos, índice que chega a 94% se analisada apenas a rede pública.

O estudo não detalha o que são "medidas mais duras", mas outra questão apresentada indica uma possibilidade: 67,4% disseram que deveria chegar a haver expulsão de alunos.

"As escolas brasileiras são espaços desorganizados, pouco propiciadores de um ambiente facilitador para estudo e reflexão. Isso se deve a problemas de comportamento dos alunos e a problemas de gestão e organização [das escolas]", disse Maria Malta Campos, que coordenou o trabalho, ao citar o que pode influenciar na posição dos docentes.

Campos afirma que é contra a expulsão de alunos. "Muitos fatores precisam ser superados, mais abrangentes do que simples medidas punitivas."

Educadores afirmam que um dos principais problemas nas escolas, principalmente das públicas, é a falta de regras claras. Nos regimentos, por exemplo, existe a possibilidade de expulsão, mas ela é pouco aplicada.

"Somos agredidos verbalmente pelos alunos diariamente. Não há mecanismo para impedir indisciplina. O professor e a supervisão conversam com alunos e pais, mas não adianta", disse Ricardo Pinto, 41, que leciona história na rede estadual e municipal de São Paulo.

"Em tese, sou contra a expulsão, mas não tem outro jeito. Um aluno indisciplinado prejudica outros 40", completou.

O presidente da CNTE (confederação que representa os profissionais da educação), Roberto Franklin de Leão, diz que a pesquisa mostra "um pedido de socorro" dos professores.

"Estamos abandonados pelo Estado, sem condições adequadas de trabalho. Não há, por exemplo, ajuda psicológica para os alunos e os educadores."

Presidente do Consed (conselho de secretários estaduais de Educação), Dorinha Seabra Rezende diz que, para tentar atenuar o problema da indisciplina, o conselho tem feito capacitação de diretores para melhorar a gestão das escolas.

"Vivemos uma época em que não há limites para nada", disse o pesquisador da Universidade de Brasília, Wanderley Codo. "A expulsão é necessária em alguns casos, como exemplo."

Já a presidente da Apaesp (associação de pais e alunos da rede estadual de SP), Hebe Tolosa, diz que "não se pode expulsar essas crianças, elas também precisam de socorro, de ajuda psicológica do Estado".

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8 comentários:

João Carlos disse...

Infelizmente essa situação nas salas de aula nada mais é do que um reflexo das condições "morais" (eu odeio este termo!...) do país (e, por que não dizer: do mundo todo). A deterioração dos conceitos de "respeito" conduz à deterioração dos conceitos de "disciplina", enquanto que um populismo barato, mesclado com um paternalismo distorcido, vivem ensinando a crianças que ainda estão em processo de formação de seus valores para discernimento, que seus atos não têm conseqüências... coisa que, mais tarde (e tarde demais!...) os jovens adultos vão compreender, pela via mais dolorosa, que não é bem assim...

Chegamos a um ponto ridículo onde os professores têm medo dos alunos, assim como a polícia tem medo dos bandidos. Não é de estranhar que, mesmo não sabendo de que tipo, os professores reclamem por "punições mais severas"... por "mais severa", no atual estado das coisas, eu entendo qualquer punição. E, pelo andar da carruagem, a segregação dos alunos com comportamento altamente antissocial me parece um "mal necessário".

Antes de respeitar os "direitos humanos" dos desajustados, é imperioso fazer respeitar os "direitos humanos" dos socialmente corretos.

Fácil de dizer; difícil de fazer de uma maneira que não condene à marginalidade eterna crianças plenamente recuperáveis. Mas as autoridades parecem se esconder de suas responsabilidades atrás de "estatísticas" que, devidamente escolhidas, "comprovam o acerto" de qualquer asneira; e as famílias (que são um capítulo à parte...) se escondem atrás da velha desculpa: "alguém (nunca elas próprias) tem que tomar uma providência".

Em meu blog você pode encontrar diversas referências a estudos científicos feitos sobre o assunto "pré-escola" e "acompanhamento e aconselhamento familiar", mostrando que essas atitudes positivas acabam por ser social e economicamente vantajosas: o que se gasta com esses programas não é pouco, mas é sempre menos do que se gasta com penitenciárias, policiamento e custas judiciais.

Mas quem dá bola para o que os cientistas falam?...

aaa disse...
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aaa disse...
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aaa disse...
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Ana Paula disse...

Essa situação já saiu do controle, essa violência não atinge apenas as grandes cidades...

Aqui mesmo, no "interior", já tivemos casos de violência contra professores que me deixaram chocadas... Alguns professores da rede pública chegaram a denunciar alunos que os ameaçavam por conta de notas ruins em provas ou outros motivos igualmente fúteis... Um professor foi agredido por irmãos de um aluno que não concordou com uma nota ruim no boletim... ele chegou a ficar hospitalizado e se negou a dar o nome dos agressores a polícia por medo de novos ataques (!).

É por essas e outras que uma porcentagem enorme do meu salário vai para a escolinha do baby - que não é perfeita, mas pelo menos não o expõe a essa realidade...

Ana Cláudia Bessa disse...

Isso é uma bola de neve... a discussão lembra a propaganda que pergunta se vende porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais...

A escola também não ajuda em nada o aluno a permanecer nela. Os professores em muitos casos, também não se dedicam com afinco e atenção aos alunos, sempre alegando baixos salários...

Não sei onde vai parar, nem sei que está certo...acho que ninguém.

João Carlos disse...

Minhas caras Anas, para ter uma visão do ponto de vista dos professores, eu recomendo o Blog "Diário do Professor", de Declev Reynier Dib-Ferreira. Lá vocês podem ver todo o desespero de alguém que insiste em acreditar no que faz, mas não tem as mínimas condições...

Ana Paula disse...

Esse blog que foi recomendado, "Diário do Professor", é muito
interessante, chega a ser desesperador. Como ele, imagino quantos professores começam a dar aulas com uma visão idealista, pensando em "moldar as mentes do futuro", "fazer a diferença"... Como ele, quantos não são desafiados diariamente, pelos alunos, pelos pais, pela própria escola? Quantos não resistem bravamente pelo máximo de tempo possível, até finalmente chegarem ao ponto do desespero total, da raiva, e depois, da indiferença?

Vale a pena ler:
http://diariodoprofessor.com/2007/10/28/escola-e-chata-porque-nao-faz-sentido/