segunda-feira, 24 de março de 2008

TENHO PRECONCEITOS SIM, E DAÍ? Parte I

Existe um preconceito muito grande com a palavra "preconceito"!

Etimologicamente significa "conceito pré-formulado" ou pré-estabelecido. E porque formulamos conceitos previamente? Por coerência, por encadeamento lógico de raciocínio, por comparações com padrões ou referências.

Preconceito é ruim? Não necessariamente. Muitas vezes é um mecanismo útil de auto-preservação!Vamos logo futucar a ferida. Vamos ao mais "famoso" dos preconceitos, o relacionado à cor de pele, muito confundido no Brasil com "racismo". Pretos, mulatos e outras denominações para tons de pele mais escuros, durante muito tempo foram vistos como seres "perigosos" e/ou "incultos" e/ou "inferiores", pelas camadas sociais onde impera o tom de pele mais claro (os "brancos"). Vem de uma realidade, em parte, e de um conceito equivocado (e cretino), por outra parte.(Antes de se escandalizarem, por favor, continuem lendo)A realidade, cruel, perversa, é que, de fato, após trezentos anos de uma ignóbil escravidão, e de uma "abolição" feita "de qualquer maneira", sem prever as consequências que certamente viriam ( e vieram ), uma verdadeira legião de negros libertos (mas não emancipados) passou a constituir a camada mais baixa da sociedade, incluindo o lumpesinato e a marginalidade, nos centros urbanos, e a miséria quase absoluta, nas zonas rurais.

Nestas condições, grande parte destes desgraçados passaram a ser, de fato, "perigosos". "Incultos", a quase totalidade, por razões óbvias. "Inferiores" circunstancialmente, e não biologicamente como quis demonstrar por muito tempo a própria ciência "oficial".

Desta forma, ao estereótipo do bandido, marginal, vagabundo, no Brasil, foi adicionado o tom escuro de pele. Eram só os pretos? Não, mas, sem dúvida, eram maioria.Surgia o preconceito: A maioria dos marginais é preta, portanto, um preto tem grande probabilidade de ser um marginal! Gente, isso, por mais cruel que seja, é "lógica"!Imaginem as seguintes situações, passadas na alvorada do século XX:SITUAÇÃO A) Uma criança, de família branca e em razoável posição social, chega em casa trazendo um "amiguinho" preto.

Reação 1 - A família se assusta pois, "quem sabe de onde vem" aquele menino? quem são seus pais? onde moram? o que fazem? "provavelmente" são pessoas que não pertencem ao nosso "nível", ao nosso "mundo". Quem sabe são até "perigosos"? Pelo-sim-pelo-não, não queremos nosso filho em sua companhia! - Isso é PRECONCEITO!

Reação 2 - A família se indigna. "Pretos não são companhia para nosso filho". Eles são inferiores, "cheiram mal", são perversos, vagabundos, perniciosos... - Isso é RACISMO!SITUAÇÃO B) ... No próximo post!

__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

3 comentários:

Ana Cláudia Bessa disse...

É, Ivo, infelizmente, essa é uma realidade porque, de fato, tudo o que vivemos é fruto da história do nosso país.

Muita gente, inclusive, condena muito a Princesa Isabel por conta disso. E aí, eu coloco mais lenha nessa fogueira: quando seria feita a abolição dos escravos se dependesse dos homens poderosos da época?

E o que conseguiria de melhor, uma mulhernaquela época, do que conseguiu a princesa?

E agora, diante desse quadro, o que podemos fazer para entrar no caminho de melhora dessa situação, que é uma realidade da qual não podemos fugir?

Geo disse...

Realmente vc distinguiu bem a diferença entre o preconceito e o racismo, mas eu acho os dois são injustificáveis e inaceitáveis. Marginal e bandido existe de toda cor e classe social, muitos comandando estados e fazendo leis. Não é porque alguns deles são negros que podemos justificar o preconceito sobre a raça.

Ivo Fontan disse...

Continuem lendo (sem preconceitos, rs rs rs)para entenderem onde eu quero chegar.
O que eu pretendo mostrar, "geo", é que os preconceitos, seja de que natureza forem, se extinguem naturalmente uma vez extinta a fonte que os gerou. Eles (os preconceitos) não são intrinsecamente "do mal", eles são sim, intrinsecamente "instintivos".
Um antílope selvagem fugirá sempre que avistar ou sentir o cheiro de um leão, pois seu pré-conceito lhe dirá que aquilo representa perigo.
Um antílope criado com um leão desde pequenino não possuirá este pré-conceito e não fugirá.
Querem ver uma coisa? Quem hoje fica tranquilo no trânsito quando vê se aproximar uma motocicleta com duas pessoas? Olhaí um pré-conceito moderno nascendo! Por causa disso você vai deixar de tomar precauções? Vai apostar que são dois "trabalhadores" indo para o trabalho?
Já racismo é outra coisa. É doença da alma!