terça-feira, 1 de maio de 2007

FAVELAS (III - Final)


"A esmagadora maioria dos habitantes de favelas são pessoas honestas, pacíficas, cumpridoras dos seus deveres..." Você já deve ter ouvido (e, porque não, falado) isso incontáveis vezes. Essa premissa está presente no discurso de muita gente boa e bem intencionada. Mas será? Vamos dar uma analisada nisso sem preconceitos, sem sentimentos burgueses de culpa e sem paternalismos babacas? Vamolá:
-1) Morar sem pagar um tostão de IPTU é ser "cumpridor dos seus deveres"? Mas são pobres, excluídos, coitados, só moram lá porque é a única condição que têm de morar, viver, sobreviver! Então não existem pobres, excluídos, coitados, morando fora de favelas (e pagando sim IPTU com um puta sacrifício)? Será que todos os "favelados" se encaixam na categoria de "pobres, excluídos, coitados"? Quais são as estatísticas? Quantos estão lá por oportunismo, comodismo, esperteza?
-2) Obstrução do trabalho policial, da justiça, omissão de socorro, falso testemunho, acobertamento de ação criminosa e outras "práticas" comuns do dia-a-dia das favelas não são crimes ou contravenções previstos e tipificados nos códigos? Ah, mas eles, coitados, vivem "aterrorizados" pelos "chefões". A Lei do Silêncio é vital para sua sobrevivência! Talvez isso explique o porque eles estejam sempre com um "ar tão constrangido" quando promovem quebra-quebra, incendeiam transportes coletivos, saqueiam caminhões de mercadoria etc sempre "obedecendo (a contragosto, claro) ordens dos famigerados chefões!
Há inúmeras outras evidências que parecem contradizer a idéia de que o "favelado" de hoje é aquele mesmo despossuído, excluído, quase sempre migrante nordestino, de algumas décadas atrás. Até porque os verdadeiros MISERÁVEIS deste país sequer tem acesso á maioria de nossas favelas!
Não dá mais pra tapar o sol com a peneira. É preciso enfrentar o fato de que as favelas se tornaram a principal indústria do crime e da violência em nossa cidade. Não há projeto, programa, estratégia para reversão do quadro de terror em que mergulhamos, que possa ser considerado sério se não prever O FIM DAS FAVELAS!
Claro que não estou pensando em "remoções" como em épocas passadas. Afinal, as principais "remoções" deram origem à Cidade de Deus e à Vila Kennedy! Também não acredito nos "favela-bairros" nos moldes dos que já foram feitos, "enchendo" de concreto as partes visíveis e espalhando "pracinhas", "playgrounds", "tendas", "quadras de esportes" e outras obras de quinta categoria fadadas a serem depredadas ou deteriorarem por falta de manutenção. Imagino uma intervenção verdadeira, corajosa e definitiva que seja precedida de uma avaliação criteriosa sobre quais as favelas que possam verdadeiramente se tornar bairros, com replanejamento urbano e quais os guetos "indignos de seres humanos" que tem de ser efetivamente "desmontados".
É claro que não é um processo simples e, muito menos, de curto prazo. Tampouco é uma ação que independa de outras providências como geração de empregos e atividade econômica LÍCITA, combate ao banditismo associado ou não ao TRÁFICO, inserção, inclusão, desestigmatização e descaracterização de guetos etc. Uma idéia é atrair, com incentivos fiscais, grandes empreendimentos geradores de emprego e renda para se estabelecerem em algumas dessas comunidades hoje faveladas, da mesma forma que muitas cidades de interior fazem para atrair indústrias. Há muitas das atuais favelas que comportam esse tipo de ação.
Enfim, é um projeto político-social de grande envergadura, mas que precisa, para ser levado a cabo, de políticos e administradores também de grande envergadura. Aí o "bicho pega", né? Pois é, vamos começar a pensar seriamente nisso?
Que tal começarmos mudando paradigmas nas nossas próprias cabeças? Chega de olhar para as favelas com olhar paternalista, pena ou remorso(?!). Chega de ter medo do patrulhamento do "politicamente correto".
Precisamos incluir os excluídos, caçar os bandidos e "acabar com a mamata" dos oportunistas.
Simples assim!
_____________________________________________________
IVO FONTAN

7 comentários:

Ana Cláudia Bessa disse...

Ivo,
eu penso que tem muita gente boa na favela , sim.
Mas é um bom diferente, um parâmetro diferente.
Contudo, infelizmente, as pessoas hoje, por melhores qu sejam, buscam o "mais fácil" sem mesmo analisar que o que estão fazendo é o mais difícil. Explico:Morar na favela é barato, muito mais do que "no asfalto". Claro, não há impostos e sequer posse do "chão", faz-se gato de luz , de água e Tv a cabo. O que é além de tudo uma desonestidade. Só que o referecial de honestidade é outro, diferente do nosso. E é fácil viver lá? Criar filhos?
É um horror.
Mas as pessoas preferem pagar mais barato e morar no inferno. É o mal dos políticos que querem ganhar mais á custa do mal comum, da fome, da miséria dos outros. Essas pessoas que estão nas favelas e reclamam dos políticos, fariam exatamente o mesmo no lugar deles.
A essência é a mesma, só muda a escala.
E tem mais, vai dizer pra pessoa que não tem hospital decente, escola com professor, condução digna que tem que pagar imposto vendo os políticos andando de helicóptero e fazendo plástica no exterior!

Ivo Fontan disse...

É isso aí, Ana
Frequentemente eu sou interpretado de maneira equivocada quando externo esta minha visão sobre favelas.
Você foi muito feliz ao criar a expressão "um bom diferente". Conheci muitos moradores de favela, tive amigos lá, quando jovem. Hoje convivo muito de perto com um outro tipo de "favelado", o daqui de Teresópolis, que apresenta algumas diferenças em relação aos das cidades grandes mas que se assemelham muito na questão que você chamou de "referencial de honestidade".
O que precisamos, para começar a mudar este quadro, é de uma revolução sociológica que resulte no combate definitivo ao conceito-favela, ao paradigma-favela, à referência-favela.
Essa revolução não começa nos gabinetes, mas dentro de cada um de nós, e passa necessariamente pela questão EDUCAÇÃO, verdadeira, séria, universal e maiúscula!
Engraçado, isso nos remete, não sei porque, ao Cristovam Buarque...

Ana Cláudia Bessa disse...

Ivo, depois de ler seu texto não consigo mais pensar em nada que adiante se não acabarmos com as favelas. Alguém tem que tirar essas pessoas de lá! Que coisa mais difícil de se fazer, eu sei!
Passamos outro dia por um pequeno trecho da linha vermelha e MILHARES de tijolos e dezenas de pessoas construíam mais de 20 novos barracos. À luz do dia!
Numa resportagem hoje, estavam fazendo desocupçação de uma área cheia de construção irregular. Mas não era tijolo, era papelão. Mas dezenas de casas, uma coisa assustadora. As pessoas correntdo para salvar televisão, geladeira...
Como você disse, não há solução séria que não seja acabar com as favelas e impedir seu avanço.
Toda a violência vem de lá, todas as balas perdidas, todos os bandidos. E não adianta o Rio Cidade. Tem que desapropriar para criar ruas, acabar com os becos e dar condições dignas para que estes lugares se transformem em bairros.
Ou os bandidos vão tomar conta da cidade e não estamos longe disso. Vide os 50 policiais assassinados só este ano.
Vide os mais de 1000 assassinatos denunciados por aquele movimento Rio da Paz que fincou cruzes e se deitou nas areias de Copacabana.

Ivo Fontan disse...

Ana, vou te contar uma que mostra bem um lado pouco conhecido deste câncer urbano:
No meu trabalho havia uma moça que morava na favela de Manguinhos. Ela me contou que várias pessoas da sua "comunidade", inclusive ela, mantinham barracos nas margens dos rios e canais das vizinhanças (Faria-Timbó e Cunha) na expectativa de uma enchente os destruisse para que elas entrassem na lista de "benesses" do governo. Nestes barracos eles mantinham algum mobiliário velho e sempre tinha pelo menos uma pessoa, para caracterizar a "moradia" e impedir "invasões"!
E a gente morria de pena quando via na televisão aquelas pobres criaturas que haviam "perdido tudo"!

Cristiane Fetter disse...

Ivo, meu tinha um amigo que por melhor que fosse o salário dele não saía da favela (ele morava no inferno colorido) na av. Brasil. Ele dizia que não saía de lá pois tinha água, luz, escola, posto de saúde e outras benesses gratuitas. E quando a gente perguntava se valia a pena morar em um lugar sem segurança ele respondia: tudo tem seu preço. Infelizmente isto acontece em meio aqueles que moram lá por necessidade mesmo. Precisamos mostrar mais isto. Abraços

Ana Cláudia Bessa disse...

Agora me diz se essas pessoas, caso estivessem no poder, não fariam o mesmo que fazem nossos atuais políticos e de cuja atuação vivem a reclamar?
Aliás, não só essas pessoas.
Infelizmente a grande maioria da população.
Reclama.
Mas se estivesse lá estaria roubando, desviando, propinando como qualquer político safado (a maioria) que temos por aqui.

Zilda disse...

Ou aumentando os próprios salários durante a visita do Papa!