domingo, 27 de maio de 2007

A IGREJA, O ABORTO, ETC

Este texto deve estar sendo postado alguns dias depois da partida do Papa.
Não tem importância, os temas e as polêmicas levantadas continuam vivos e atuais.

Talvez a maior polêmica que fica como saldo seja a posição declarada de Bento XVI de condenação ao aborto.

Não quero e nem vou entrar no mérito, até porque acho que é assunto por demais sério para que se fique dando "palpites", e eu não estou qualificado para tal.
Só quero externar minha estranheza quanto às reações de várias pessoas e segmentos sociais contra as posições da Igreja. Aliás, não só com relação a este mas também muitos outros temas em que a Igreja mantém posições que são consideradas "contrárias à modernidade e à realidade do mundo de hoje".

Não entendo porque as posições da Igreja Católica incomodam tanta gente. O que queriam? uma Igreja "modernosa", aberta a todas as tendências da sociedade moderna?
Sabem o que aconteceria se a Igreja "absorvesse" todas essas tais tendências? Ela não seria mais referência para ninguém. Ela não teria mais o respeito de ninguém.
Sabem do que mais? Sabem porque a Igreja Católica (suas posições "polêmicas") é tão contestada no Brasil? Simplesmente porque é a religião da maioria. Ela não é mais ortodoxa e tradicional e nem apresenta posições mais retrógradas do que as outras grandes religiões monoteístas (comparem com o Islã e o Judaísmo). Acontece que as tais posições retrógradas destas outras não "mexem conosco" enquanto nação.

(Aliás, quem acha que a Igreja de Roma é retrógrada deveria dar uma passadinha por alguns templos ditos "evangélicos", de denominações neo-pentecostais, e ouvir um pouquinho do que lá é pregado).

Onde quero chegar é no seguinte ponto: As posições da Igreja não devem ser senão um "balizamento" para os fiéis. Seguir ao pé-da-letra as orientações ou não é problema de cada um. Os cânones não são Leis Civis que submetam seus seguidores a "penalidades" fora do âmbito estritamente religioso.

Muito mais grave, para a sociedade, do que esta ou outra posição da Igreja quanto à conduta dos fiéis é o comportamento dos governantes e legisladores, estes sim, responsáveis pelos atos que regulam nossa vida no dia-a-dia e que, na maioria das vezes são movidos por razões que nada têm de moral, ética, religiosidade...
Deixem a Igreja em paz! Ela está "na dela". Seu papel é mesmo esse. Ela age como uma espécie de "freio social".

Quando eu estudava FÍSICA, achava engraçados os problemas de mecânica que eram enunciados com o seguinte pressuposto: "Considere o atrito ZERO". Ora, todos sabemos que, nas condições "terráqueas" o atrito zero é uma abstração. Esta força age sobre TODOS os corpos que se movimentam aqui neste nosso mundinho. Sem ela não haveria FREIO. Todo movimento terminaria numa bela "esborrachada"!

A Igreja nada mais é que o ATRITO SOCIAL. Sem ela a permissividade (no pior dos sentidos) determinaria quase todo o comportamento do homem em sociedade.
Lembrem-se de que a Igreja também condenava (e condena ainda, com a mesma veemência), a dissolução do matrimônio. Hoje o divórcio é uma realidade entre nós!
Vamos deixar a Igreja fazer seu papel e vamos nos preocupar mais com nossos POLÍTICOS, estes sim, um PERIGO para nossa sobrevivência!

E, afinal de contas, para o FUTURO DE NOSSOS FILHOS, conta muito mais os valores morais e éticos que passemos para eles, no dia-a-dia, do que qualquer "orientação eclesiástica", né não?
Obs: Ter sido batizado, feito primeira comunhão, frequentado missas e "papado" hóstias na infância e juventude não me impediu de ter minhas próprias idéias, feito minhas escolhas, ter me casado com uma mulher (maravilhosa!) divorciada e construir uma família abençoada. Sequer me impediu de ser agnóstico, com muita convicção!
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IVO FONTAN

4 comentários:

Marcelo Bessa disse...

Caro Ivo,

Parabéns pelo seu texto, bastante claro e bem direto. Entretanto um ponto específico me chamou a atenção, no qual vc fala "deixem a Igreja em paz".

Creio que a Igreja deve sim ser contestada a todo momento, pois é uma instituição social que influi e define a sociedade, assim como a política. Aliás, igreja é política pura. O que é a Bíblia, se não uma "constituição", um código de conduta social?

A igreja católica deve ser contestada, pois senão corremos o risco de um estado teocrático, como acontece com os países islâmicos. É nítido nos evangélicos um projeto de poder, ressaltado em sua crescente participação política em nosso parlamento. Um grande retrocesso.

A igreja católica tem respondido a este avanço evangélico. A vinda do Papa refletiu bem isso. Tentam, politicamente, publicitariamente e conceitualmente reaver o espaço perdido. A renovação carismática está aí, muito semelhante aos evangélicos.

Tendo isto em vista, insisto para que não deixemos a igreja em paz, pois se fóssemos depender dela estaríamos ainda na Idade Média. Quem estuda a história pode perceber que a igreja Católica, pelo menos no ocidente, foi contrária a todas as conquistas tecnológicas e científicas. Da Vinci, Giordano Bruno, Galileu... Todos perseguidos, quando não queimados em praça pública.

Também concordo que o papel da igreja é freiar. Se a igreja se modernizar ela acaba, pois se fundamenta no tradicionalismo e numa suposta "procuração de Deus" para fala em nome dele. Sendo assim, a igreja mudar de idéia "significaria" que Deus mudou de idéia, o que é inconcebível, pois ele é perfeito.

A igreja faz o seu papel. E façamos o nosso: contestar esta "procuração", que na verdade nunca existiu.

Ivo Fontan disse...

Ok Marcelo
Você complementou o meu texto.
Contestar sim, mas jamais "exigir" que a igreja tenha uma postura de concordância plena com todos os supostos "avanços" sociais. Até porque muitos deles somente o tempo dirá se realmente são avanços.
Além disso, insisto, muito mais perigoso e pernicioso do que qualquer posição da igreja são as ações de políticos e governantes, que passam ao largo (muuuuito ao largo) de qualquer código de conduta, ética ou moral, sob o ponto de vista de qualquer religião.
Obrigado pelo comentário.

Ana Cláudia Bessa disse...

Eu concordo com meu irmão (sim, o Marcelo é meu irmão!).
No caso do aborto, por exemplo, por uma questão religiosa e crença espiritual que tenho, sou contra.
Contudo, não posso fechar os olhos diante da atual realidade da nossa sociedade perante os abortos que acontecem clandestinamente todos os dias e continuarão a acontecer, que queria a igreja ou não. Quer queira eu ou não.
E nesse ponto concordo com uma declaração do Lula: pessoalmente sou contra o aborto. Socialmente, penso que é uma questão delicada que deve ser seriamente discutida.
Não lembro se foi exatamente assim que ele falou, mas é assim que penso.

Cristiane A. Fetter disse...

Fantástico este post Ivo, contestar sim, radicalizar talvez nunca. Hoje vivemos em uma socieade ou mundo ou seja lá o que for, onde as escolhas tem que ser respeitadas, mas onde temos o direito de reinvindicar que tudo seja feito dentro do bom senso (o que aliás é uma batalha árdua). Você tocou neste ponto muito apropriadamente, "muitos" querem passar para a igreja a responsabilidade de muitas atitudes de seus seguidores quando na realidade os seguidores é que fazer a igreja. Pensar as vezes dá trabalho e controlar as ações de políticos e governantes exige que gastemos alguns neurônios. Vamos continuar pensando. Abraços