quarta-feira, 16 de julho de 2008

A mediocridade da Justiça


Quem viveu os momentos dos notíciários naquele 28 de Dezembro de 1992? Eu tinha 20 anos e nunca vou esquecer a indignação que todos sentimos ao ver as notícias, sem conseguir acreditar no que tinha acontecido. A dor da mãe, a dor do marido, da família, dos amigos, dos fãs...

Eu, que morei no Recreio, passeio inúmeras vezes em frente ao local onde ela foi assassinada. Hoje não é mais um local ermo. E agora, tenho um motivo a mais para sempre lembrar dela: minha vizinha tem uma fisionomia que lembra demais a Daniela. Nem preciso dizer que é uma graça.

Através do blog da Denise revivi aqueles momentos e conheci o blog da Glória Perez e seu site no You Tube, onde ela menciona :

"Fiz essa página para que as pessoas tenham acesso à verdade dos autos que condenaram os assassinos de minha filha Daniella. É insuportável ver que, depois de sacrificada por dois psicopatas, minha filha continue a ser agredida pelas versões fantasiosas que ainda povoam a imaginação de alguns. 15 anos depois, os abutres que se alimentam da dor alheia continuam insaciáveis. Já existe até quem se passe por mim, para divulgar falsas entrevistas através da internet, onde apareço dizendo insanidades. É hora de botar ponto final nesse circo!Aqui você vai entender porque Guilherme de Pádua e Paula Nogueira Peixoto (ex Paula Thomaz), foram condenados pelo TRibunal do Júri por homicídio duplamente qualificado, com agravantes:
Inciso 1- motivo torpe
Inciso IV- à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso quedificulte ou torne impossível a defesa do ofendido"

Isso tudo já revolta, mas Glória ainda diz mais num post dedicado a Irmã Dorothy Stang:

"Há anos, há muitos anos, estamos lutando para tirar do nosso código penal o "protesto por novo júri", que consiste em mandar, a novo julgamento, o condenado a pena superior a 20 anos.O benefício, criado na época do império, para evitar injustiças no caso dos condenados à morte, continuou valendo, mesmo depois de a pena de morte ter sido abolida no Brasil.Resultado: seja qual for a gravidade do crime cometido, a pena máxima passou a ser, na prática, de 19 anos e 6 meses, para evitar que o desfecho do caso fosse adiado para daqui a mais 4, 5 anos!"

Gente, que Justiça medíocre é a nossa! A vida da Daniela, da Gabriela, da Dorothy, do João Hélio, da Isabella e de todos nós, custa a bagatela de 5 ou 6 anos de cadeia (quando ele cumpre!!) e ainda tem direito a apelar da sentença. É quase uma procuração do Estado dando-lhe plenos direitos a decidir quando e quem ele vai matar. Molinho pro bandido. Afinal, que maior incentivo ao crime do que a impunidade?

E nada, nada trará de volta os anos que a Daniela não viveu, os netos que a Glória não teve, os namorados que Gabriela não beijou, as brincadeiras que o João não brincou... Vidas são interrompidas, roubadas e a impunidade é a vitória dos bandidos do nosso país.

Nossa Justiça é isso aí. Nossa Justiça é um elixir para o crime, um alimento para a violência, um deboche com o cidadão. E a situação é tão grave que mesmo diante de tantas barbáries, mesmo depois de lutas tão grandiosas com pessoas tão famosas como a Glória, de outras tão engajadas como os pais da Gabriela, de organismos internacionais como os que cobraram justiça no caso da Irmã Dorothy, pouco se avança para uma reforma digna do Código Penal. Como já dizia Renato Russo: que país é esse?
________________________________________________________________________________ Ana Cláudia Bessa
PS: Não menciono o assassinato do João Roberto, morto aos 3 anos de idade por policiais no Rio, porque o texto foi escrito antes disso.

2 comentários:

Geovana disse...

Lula sansionou o projeot de lei que acaba com o direito a um novo julgamento para reus acusados de assassinato e condenados a mais de 20 anos. Veja a reportagem lá no blog http://meninorude.blogspot.com/2008/06/justia-tarda-mas-no-falha.html
A sansão foi em 10 de junho de 2008.
Existem outras medidas importantes sancionadas.

Foi um passo importante para a jusiça brasileira.

Ana Cláudia Bessa disse...

Tomara que as coisas mudem porque as brechas ainda permitem que maus advogados libertem estes bandidos.

Além do mais o sistema prisional precisa evoluir. Lá o bandido que entra fica pior.