quarta-feira, 16 de abril de 2008

TADINHO, TÁ TRABALHANDO!

Já comentei aqui neste espaço sobre a minha indignação contra o comércio escancarado e livre de produtos pirateados em todas as cidades do país. Para quem não leu ou não lembra, vou recordar duas situações surrealistas:


1) Estive em uma cidade de Minas onde não existe nenhuma loja que venda CDs (eu disse nenhuma! a última fechou por falência ). Só se compra CD PIRATA nas ruas! ;

2) Em Cabo Frio, na feirinha oficial da cidade existem barracas (legalizadas pela prefeitura, com numerinho de licença e crachazinho. Em Teresópolis também) vendendo... CDs e DVDs piratas!

Junte-se a isso os inúmeros vendedores de produtos ROUBADOS, CONTRABANDEADOS etc. e teremos um quadro aproximado do "ilegalismo" que tomou conta de nossas ruas, e com o qual nos acostumamos e, pior ainda, nos tornamos CÚMPLICES.

Somos cúmplices "ativos" quando, "espertamente", adquirimos esses produtos. Cúmplices "passivos" quando nos colocamos contra a repressão sob a alegação de que "o coitadinho está trabalhando!".

Esta atitude faz parte da mesma "complacência social" que leva a maioria das pessoas a considerar TODOS os moradores de favelas como sendo "pobres coitados", "vítimas sociais" que "só estão lá porque não tem outra opção"!

Falar sobre isso (como estou fazendo) é politicamente incorreto, fascista, preconceituoso...Então tá! Me qualifiquem como bem entenderem, mas eu não tenho nenhuma "peninha" e me recuso a ser CÚMPLICE de quem vende ROUBO, CONTRABANDO ou produto de PIRATARIA. Meu conceito de TRABALHO é outro, e disso eu entendo, pois o faço desde os quatorze anos de idade!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

9 comentários:

Ana Cláudia Bessa disse...

É revoltante mesmo, Ivo.
Nossa sociedade muitas vezes se veste de uma hipocrisia enorme mas eu penso que isso acontece porque nós mesmos, como cidadãos precisamos dar a desculpa de que o fato de não estar matando ou roubando à mão armada justifica a pessoa vender qualquer coisa.
Acontece que essa pessoas também se vestem no manto da falta de oportunidades dadas por nosso governo. Viram vítimas e algozes, nós e eles.
E diante de tanta corrupção, descaso, injustiça generalizada em todas as esferas, eu, infelismente, não vejo solução para isso, tão cedo....

Anônimo disse...

Eu acho impressionante a facilidade com que nos acostumamos com as coisas erradas da nossa sociedade. Eu não dou dinheiro em sinal, não compro bala e não dou remédio para quem aparece na minha porta pedindo e nem caixinha de Natal.

Como o Sr. ivo, eu trabalho desde muito cedo, mesmo sem formação e acho que pedir não dá futuro a ninguém.

Assim como vender produto contrabandeado também não.

Suzana Elvas disse...

Ivo, Ana Cláudia e Anônimo;

Eu trabalho desde os 15 anos. Saí de casa aos 17. Casei, tive duas filhas. Depois de sofrer violência doméstica continuamente, apanhando inclusive quando estava grávida, dei um basta, pedi o divórcio, fui enfrentar a vida sem família, com minhas duas filhas. Como autônoma.

No primeiro ano depois da separação, sem pensão nem emprego, dias se passaram em que eu não tinha nada a dar de comer às minhas filhas. Muitas vezes amigos ofereciam, muitas vezes era nada. Nada. Dias sem jantar, dias sem café da manhã, dias de magreza absoluta.

Nesses dias, amigos, se me oferecessem para vender bolsas falsificadas na Avenida Rio Branco, cigarros roubados do Paraguai, eu iria, sem dor na consicência - não o fiz por absoluta falta de oportunidade. Fiquei então com fome, eu e minhas filhas, ambas vestindo roupas puídas, calçando sapatos apertados (o que quase provocou uma lesão permanente no dedo de uma delas). Assim como quem pergunta "Mas por que ela não se separa, se apanha do marido?" não tem idéia do que fala até se ver pega no ciclo vicioso da insegurança/dependência emocional, acredito que quem nunca ouviu o filho pequeno dizer "Mãe, estou com fome, o que a gente vai comer?" sem ter ABSOLUTAMENTE NADA a oferecer não deve gritar tão alto que o comércio de falsificados/contrabandeados é isso ou aquilo.

Comercializar falsificados/contrabandeados/drogas/armas é ilegal. É incentivar o crime, principalmente o organizado. A fome e a doença não desculpam, mas justificam. E eu sempre tento me pôr no lugar de quem faz isso por extrema necessidade. E não julgo, jamais.
Abs

Suzana

Ana Cláudia Bessa disse...

Suzana,

você está cobertíssima de razão. Eu também sou separada e posso atestar que foi a pior fase da minha vida, sem pensão, nem emprego. Só não foi pior porque eu não tive filhos do primeiro casamento. Já escolhi mais de uma vez, que conta ia pagar, que conta ia atrasar. Cheguei em casa sem luz, tomei banho frio e fui dormir, rezando pro que tinha na geladeira, não estragar...
Não passei fome, mas foi ruim mesmo. E tem muita gente que passa coisa pior, muito pior, porque eu tinha um teto, comida, roupa, cobertor e cama quentinha prá chorar. Como diz nossa amiga Cristiane Fetter, sempre pode ser pior.
Mas no contexto do post do Ivo, eu embora concorde com você de que a fome justifica tudo, acho que enquanto a gente tratar o assunto com normalidade, aceitando o justificável, as coisas não vão mudar.

Eu posso até vender bolsa Prada falsificada no sinal, mas o governo tem que coibir.

Eu posso até deixar de mandar um filho prá escola porque tem que tabalhar, mas o governo tem que dar escola e coibir.

Fazer pode mas o governo não pode deixar de coibir.

Ele deixa? Ok, temos que cobrar.
Cadê emprego, cadê a escola, cadê a infra-estrutura e cadê a fiscalização?
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Ah...um infelizmente lá em cima no meu post, saiu com S. foi erro de digitação, tá gente, infelizzzzmente. Coisa horrorosa...

Suzana Elvas disse...

Eu sei, Ana. Por isso eu disse que é ilegal, e a fome não desculpa nem omite o castigo e a repressão - mas justifica o delito. Escrevi isso porque às vezes o Ivo me parece muito preto no branco, quando na verdade a vida é muito mais cinza do que dizem os posts dele.

Me lembra uma menina de cinco anos (pelo menos o tamanho dela parecia ser o de uma criança dessa idade) que se aproximou da nossa mesa num restaurante pequeno, na calçada. Pediu dinheiro para comer. Ela virou a cara e disse "Espera a revolução social" e fingiu que a criança não estava ali. Pedi então ao garçom que fizesse uma quentinha e dei a ela.

Eu já passei por isso e já vi (como você mesma disse) coisa muito pior. Crianças desnutridas, seminuas num frio horrível. Quando trabalhava em jornal, vi uma cena que me marcou, quando cobria enchentes no Rio: numa favela da Baixada, uma mãe encolhida num cantinho do barraco com duas crianças no colo e um menino entre as pernas. Sentada muito ereta numa cadeira meio mole, ela tentava não se mexer. Um frio cortante, uma verdadeira tempestade: o canto onde ela estava era o únido por onde não pingava água no barraco. E ela ali, sem se mexer para não acordar as crianças.

A miséria é muito feia, Ana. Feia, suja, malcheirosa. E é um processo muito difícil de se debelar. É preciso sim, cortar o ilegal, batalhar por um governo mais eficiente, leis mais justas, transparência nos três Poderes. Mas sempre pensando que desse mar de lama vem a comida de muita gente que, hoje, é completamente desamparada e órfã.

Como disse Herman Melville, "de todas as absurdas suposições da humanidade, nada excede as críticas feitas dos hábitos dos pobres pelos que têm boa moradia, estão bem aquecidos e bem alimentados."

matteo irma disse...

Ana, Ivo,
Concordo com vcs e jamais comprei algo pirata, nesse ponto faço minha parte. Mas o problema é que não é só isso.
Uma vez li, em algum lugar (possivelmente um blog) que não me lembro agora, uma opinião sobre o tema que ia um pouco além do que vcs colocam. Sem querer discutir se o que vcs colocam está certo ou não (afinal não só minnha opinião, mas tb minha atitude está em linha com o post de vcs), aquilo me fez pensar. Vcs sabiam que baixar na internet músicas e filmes tb é crime? Juro que não sabia, e confesso que já baixei e ainda baixo muita coisa. Porque se pensarmos bem, criticar a pirataria é criticar aquele que não tem acesso a internet (ou seja, o menos favorecido), pois é ele que vai praticar esse crime para evitar os preços proibitivos que prevalecem no mercado fonográfico. Convenhamos, isso é verdade.
E se é natural baixar na internet, por que não comprar cd pirtata na rua? Pra gente que tem computador há mais de uma década e está acostumado a conseguir as músicas e filmes que queremos na internet há muitpo tempo, é mais fácil criticar aqueles que compram o "piratão" na rua.
Ok, existe todo um crime organizado por trás disso, assim como no caso dos que consomem drogas, existe uma grande parcela de responsabilidade, afinal sustentam o crime.
Mas por outro lado aceitar a atitude de quem baixa da internet, mas criticar quem compra o cd pirata na rua é, de certa forma, sustentar a desigualdade.
Outro argumento que li, dessa vez contra a indústria fonográfica é de que o valor do prejuízo que eles calculam e divulgam se baseia na estimativa de cd's piratas vendidos, o que, convenhamos, é uma absurddo, afinal se a galera que compra 10 cd's piratas, na falta deles, fosse comprar cd's "oficiais", compraria um ou dois, se tanto. Isso obviamente não justifica a prática do crime, mas o fato de os cd's oficiais serem tão caros contribui para o crime, sem dúvida. E empresariado brasileiro aqui deveria assumir sa parcela de responsabilidade pela situação dedesigualdade e pelos problemas sociais que vivemos, em vez de gananciosamente só se preocupar com o seu lucro. O Brasil é um dos países - se não for o país - em que o rempresário mais lucra. Ok, temos encargos sociais e impostos muito altos (e injustos, considerando o que temos de retorno do governo), mas o repasse de tudo isso vai sempre para as costas do consumidor final, e do trabalhador. Falo isso porque trabalhei nessa área.
Bem, queria trazer para o debate aqui algo novo, algo que li e que me fez pensar a respeito.
beijos
Renata

Paola Oliveira disse...

Esse assunto dá pano prá manga!

Eu acho meio relativo esse negócio de pirataria. Sou do tempo do cassete e copiar nunca foi pirataria. Agora é? Não, não é. Eu copio e baixo música como fazia nos antigos cassetes mas não vendo, não repasso prá ninguém. É para mim, uso doméstico e particular. Daqui a pouco gravar filme no video cassete também vai ser crime? Se não é crime é porque tudo que eu falei é a mesma coisa: uso doméstico. Copiar filme da locadora ou da TV dá no mesmo. É hipócrita que não admite que faz e quem acha que não deve fazer ou que isso dá prejuízo pro mercado das gravadoras; não dá. Tá todo mundo rico.
Pirataria prá mim é vender coisa falsificada, gerar lucro direto, repassar mercadoria.
Compro cd´s e dvd´s originais, mas se o preço é salgado, espero baixar. Vira e mexe aparecem boas promoções.

Hoje mesmo no salão que fui, apareceu um cara vendendo cd e dvd pirata: todo mundo comprou, menos eu. E apesar do cara que estava vendendo ser de origem humilde, vou te falar: tinha a maior cara de esperto e neste ponto concordo com Ivo: por mais dificuldade que se passe, não tem outra coisa prá fazer não? Uma grama prá cortar, um jardim prá cuidar, uma obra (o mercado de construção civil está a mil e tem vaga prá todo o mundo). Aqui mesmo perto de casa, muitas casas estão sendo construídas o tempo todo e duvido que precise de especialização para trabalhar na obra e vou mais longe, não deve ter nem carteira assinada. ms é trabalho honesto. Pirataria, camelô de produto contrabandeado, pedir dinheiro no sinal, vender bala, lavar vidro de carro, prá mim, são coisas difíceis de engolir porque tem outras coisas que a pessoa pode fazer...vamos combinar...

Ivo Fontan disse...

Cara Suzana
Não sei se você sabe mas este post (e alguns, de minha autoria, que ainda serão postados) já estavam em poder do blog quando eu tomei a decisão de não escrever mais. Quem acompanhou o blog nos últimos dois meses sabe do que estou falando.
Por não fazer mais parte do grupo eu havia também decidido, por questão de coerência, não responder mais a comentários sobre esses meus posts “pós saída”.
Seus comentários, no entanto, merecem resposta. Pela forma como foram formulados e pela pungência do conteúdo, eu tenho obrigação de te dar uma satisfação.
Quero dizer que estou inteiramente de acordo com você, sem que isso signifique contradição alguma!
Entendo, aceito, admito, que, em condições extremas, qualquer ser humano faça aquilo que estiver ao seu alcance para superar adversidades e vissicitudes, sobretudo se essas se colocam sob a forma de FOME, para si próprio e seus entes queridos. Isso inclui TRANSGREDIR as leis!
Isso, porém, minha cara amiga (permita-me, pois me agradaria ter alguém assim como amiga) é a excepcionalidade. A LEI é (ou deveria ser) a regra!
A Ana Cláudia se pronunciou muito bem a esse respeito.
O que está errado é uma sociedade permitir que aconteçam coisas como que aconteceu com você, e que acontece com muita muita gente. A ausência de mecanismos sociais eficazes para, pelo menos, amparar pessoas em situações como a que você descreveu, é que é a grande tragédia.
É um erro, de proporções e consequências terríveis, imaginar que o “estado de direito” deva se curvar a circunstâncias sociais pontuais, fechando os olhos ou virando as costas aos “códigos” democrática e consensualmente estabelecidos.
Não é função do estado ter “peninha” de ninguém. É sim, sua função, cuidar para que não haja porque ter “peninha”. Pelo menos não por sua (do estado) causa! Acontece que o “estado” é também reflexo da sociedade, numa relação de “mão-dupla”. Nossos governantes são ELEITOS. Isso implica em que eles, de certa forma, são obrigados a fazer aquilo que deles esperamos. Se não damos respaldo a uma ação qualquer (por exemplo, a repressão ao comércio ilegal) do poder público, estamos implicitamente dizendo: Não queremos que façam isso! E eles, como “políticos” que são, nos ouvem e... obedecem!
Sou preto-no-branco sim, Suzana, mas também conheço as tonalidades entre um e outro. Assim como você, já vi e vivi coisas...
Tenho opiniões baseadas em vivências, e não em "ouvir-falar".
Não compactuo com o "politicamente correto" só para "ficar bem na foto". Mesmo que isso me coloque frequentemente em rota-de-colisão, como no episódio que levou à minha saída do blog.
Foi muito bom ter podido te responder. Foi bom ter lido o que você tinha a dizer (e pensado a respeito). Creio que todos nós que acompanhamos esta troca de idéias sobre esse tema saímos ganhando.
Se fosse sempre assim eu ainda estaria por aqui!
Felicidades para você e seus filhos.

Geo disse...

Ivo, Susana e demais

Acredito que o problema não está em quem vende, mas em quem compra, ou seja, nós. As pessoas são camelôs por falta de trabalho com carteira assinada. Se comprarmos em lojas e solicitarmos a nota fiscal, numa espécie de retorno teremos mais lojas abertas, mais fábricas e mais pessoas trabalhando e consimindo artigos legais e de qualidade. Somos imediatistas e é isso que nos ferra.
Já comprei CD e DVD pirata e muita coisa em camelô. Hoje procuro evitar. É como um vício que vamos sanando aos poucos até nos livrarmos dele.