sexta-feira, 11 de abril de 2008

Uma estorinha real

"Reciclando Textos"- 20/11/2006

Faz aproximadamente vinte anos. Por contingências profissionais estava me dirigindo a uma empresa (Uma grande indústria de alimentos) localizada no bairro de Acari, no Rio. No caminho, passando por uma estrada de pouco movimento, na altura dos fundos do Ceasa, um carro acidentado ladeado por uma viatura policial e outra de uma equipe de reportagem de um jornal chamou minha atenção e me fez reduzir a marcha. Ao chegar perto senti o forte cheiro nauseante de sangue (sim, sangue tem cheiro) e percebi um dos policiais se esforçando para espantar as moscas varejeiras que, em nuvem, voejavam em torno do rosto desfigurado, sem vida, ao volante do carro acidentado.

Nauseado e arrependido de ter parado e olhado, segui para a empresa. Lá chegando, em conversa com funcionários (moradores dos arredores) soube o que acontecera. A vítima era um policial (à paisana), que havia sido seguido e abordado por bandidos que, simplesmente, o executaram. A razão? Ele era policial!

Versão dos jornais no dia seguinte: Assalto seguido de assassinato por provável reação da vítima!Vinte anos depois, a empresa não mais existe, "engolida" que foi pela favelização do local. De lá para cá contam-se às centenas os policiais civis e militares, além de bombeiros e militares das forças armadas, executados sumariamente por bandidos no Rio de Janeiro POR ANO, pelo simples fato de serem agentes da lei! Policiais fora de serviço, em geral, escondem seus fardamentos e documentos funcionais.

Muitos deles foram assassinados em seus postos ou viaturas de trabalho!

Quantos tombaram nesses vinte anos?

Este tipo de crime só passou a ser "admitido" e veiculado pelos meios de comunicação há muito menos de vinte anos, quando já não era possível tampar o sol com a peneira.
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

3 comentários:

Paola Oliveira disse...

Ivo, tenho uma amiga cujo marido é policial militar e eu sou super-preocupada por ela. Por essa e outras é que eu não gostaria de ter essa profissão na família...

Taís Vinha disse...

O filho de uma amiga, de 26 anos, PM em São Paulo, morreu o ano passado com um tiro na cabeça. A profissão está tão degradada que eu me surpreendo com a quantidade de pessoas que prestam concurso para ser policial. Como que um ser humano, sacaneado em todos os aspectos (inclusive pelo lado da lei) e que não consegue garantir a própria segurança, pode garantir a nossa?

Ana Cláudia Bessa disse...

Nossa sociedade está realmente vivendo um momento de desesperança: ninguém merece ser policial diante de tanta insegurança... olha o paradoxo...
Além disso, quem se propõe a sê-lo, corre um risco enorme de ser engolido por um sistema corrupto, injusto e mal remunerado, sendo assim, nada recompensador.

Policial e cidadão é definido por aquela frase: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.