terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ASSASSINATO COM HORA MARCADA

"Reciclando Textos"- 01/12/2006


Um cara de "boa família" - classe média - praticante de vôo livre, bon vivant, resolve dar "uma esticada" em Bali para curtir. Sabedor de que a "galera" que frequenta aquele point é chegada numa cafungada, resolve levantar um troco e descola uns quilos da "branquinha" prá distribuir por lá. Dá um azar desgraçado e é pego no aeroporto. Vai em cana, como tinha mesmo que ir. Só que lá, a cana é dura. Traficante lá é fuzilado, e, afinal de contas, o cara é traficante!Vai a "julgamento" e é condenado. Vai MORRER!

Por que é que eu coloquei o julgamento aí em cima entre aspas? Pelo seguinte, eu entendo um JULGAMENTO como uma coisa ÚNICA. Explico: Quando se julga se julga ALGUÉM, e não um ATO ou uma ATITUDE.

No caso do cara em questão (eu estou falando do Archer, que está no CORREDOR DA MORTE lá na Indonésia) o tal "julgamento" comprovou que era a primeira vez que ele fazia aquilo e mais, fazia de forma autônoma, ou seja, não era ligado a nenhuma quadrilha de tráfico internacional. Isso ficou comprovado no "julgamento".

Aí eu pergunto: Esse cara fez uma coisa assim tão hedionda, tão monstruosa, que mereça ser morto, ASSASSINADO por um bando de soldados?Antes que me questionem e me acusem de estar defendendo o tráfico e uso de drogas, esclareço: Embora seja TOTALMENTE FAVORÁVEL À LIBERAÇÃO, mesmo SEM SER USUÁRIO (mas isso é outra discussão), concordo com todos os argumentos dos que combatem o tráfico, até porque, com a liberação não haveria mais tráfico! (simples, não?)

Haveria sim comércio, com circulação de impostos e geração de empregos, igualzinho acontece com o tabaco e o álcool (dos quais eu sou usuário!).Mas voltando ao assunto, O cara está certo? merece perdão? NÃO.Errou, transgrediu, quis se dar bem, arriscou e perdeu!A questão é: O que esse cara merece? Na minha opinião merece se f..., para deixar de ser "esperto".Mas o que é se f... neste caso? Aí é que está, será que uma "etapa" de xilindró, longe da boa vida que ele estava acostumado, talvez mesclada com uns trabalhos comunitários e, até mesmo, uma boa porrada pecuniária não seriam suficientes? O cara tem que MORRER?

Atentem para um detalhe, junto com ele, lá no tal corredor da morte, estão alguns dos terroristas que explodiram uma porrada de inocentes lá, na mesma Bali! E aí? Os crimes são equivalentes? Então por que a pena é?

Se o "tráfico de drogas" é punido com a MORTE (ASSASSINATO) então prá que julgamento? Se não são considerados agravantes e atenuantes, se a HISTÓRIA pessoal do cara não é considerada prá que o "circo" do julgamento? Pegou em flagrante (como foi o caso) dá logo um tiro nos cornos e pronto!(pelo menos na China o troço é menos hipócrita, lá o "julgamento" é sumaríssimo e o infeliz morre logo, não fica anos em agonia, enlouquecendo em um "corredor da morte")

Chocou? Pois é exatamente isso que o governo da Indonésia vai fazer com um brasileiro que, até prova em contrário, não é nenhum monstro, nenhum assassino. Apenas cometeu (o "julgamento" concluiu, não sou eu que estou inventando) um único erro na vida. Grave? Sim, mas pelo qual mereça ser ASSASSINADO?

Não conheço o cara nem ninguém de sua família. Não tenho procuração de ninguém para defendê-lo, mas tenho certeza de uma coisa: Por todo o susto e HORROR que esse cara já passou, duvido que ele não tenha aprendido a lição. Duvido que, caso ele saísse dessa, viesse a se meter em qualquer outra situação semelhante. Duvido que ele seja UMA AMEAÇA PARA A SOCIEDADE, seja daqui ou daquela "sociedade exemplar" que é a Indonésia. No entanto aqueles "vestais", aqueles "arautos da virtude mundial" vão ASSASSINÁ-LO!

Vem cá, eu estou enganado ou foram esta mesmas "vestais" que MASSACRARAM, não faz muito tempo, quase a metade de uma nação (crianças, velhos e gestantes incluídos)? Os "perigosos" TIMORENSES?

Fala Sério !!!

__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

16 comentários:

Cristiane Fetter disse...

Ana Cláudia, dá um pulinho lá na sua casa de campo que tem um presente para você.
Beijocas

Ana Cláudia Bessa disse...

Ivo,

eu sou contra PENA DE MORTE. em qualquer circunstância. Acho tão hediondo quanto os crimes cometidos por aqueles que merecem ser punidos com a morte.
Para mim, é barbárie.

Fora a questão do julgamento em si, que como você mesmo falou, é notadamente desnecessário. Uma hipocrisia do sistema, um teatro, uma encenação de que a justiça está sendo feita.

Morro de medo da pena de morte porque acho que como humanos que somos, somos incapazes de ser justos e corretos tirando a vida de alguém. Pelo contrário, temos grandes chances de estar cometendo uma injustiça contra um inocente porque somos falhos.

Se alguém quiser ver um exemplo, veja o filme À ESPERA DE UM MILAGRE. Não é um filme jornalístico, tampouco dramático, nem sei se pe baseado em fatos reais mas é uma história tocante de um inocente no corredor da morte.

Aos criminosos, a justiça, a punição e lei. Não a morte.

Ana Cláudia Bessa disse...

Cris, xá cumigo!
bjs!

Geo disse...

Ivo, concordo em parte com seu texto.
Realmente esse "julgamento" é desnecessário e ridículo. Realmente triste ver um brasileiro morrer por uma lei extrangeira enquanto aqui somos contra a pena de morte.
Só fico me perguntando é se, em vez de um carinha classe média, sem responsabilidades, fosse um preto e pobre da periferia, se teria repercussão e defesa da mídia e se as pessoas iam achar que era só um carinha sem responsabilidades.
Quanto à legalização tenho minha humilde opinião lá no blog(http://meninorude.blogspot.com/2007/10/maconha-foi-legalizada.html)

Ivo Fontan disse...

Geo, que repercussão?
O cara está lá, enlouquecendo aos poucos no corredor da morte e há mais de ano não sai uma linha nos jornais!

Geo disse...

Vc tem razão, o sofrimento dele é, talvez, pior que a morte. Só não deve ser pior se ele ainda guardar esperança e fé.

Suzana Elvas disse...

Sou contra a pena de morte; sou contra liberação da compra de armas, discriminação racial e sexual. Sou contra um monte de coisas.

Sim, acho que essa pena é exagerada e desnecessária. Mas sempre que penso isso penso no que meu avô dizia: você vai para um país que tem uma legislação que, de tão rigorosa, chega a ser maluca. Então você compra cocaína para distribuir e curtir?

Quer dizer, no seu país não pode, mas quem sabe rola em outro?

Veja bem, NÃO ESTOU DEFENDENDO A PENA DE MORTE NEM A CONDENAÇÃO. O que estou dizendo é que estou cansada de ler histórias de estrangeiros que viajam, praticam algum tipo de crime, sofrem as penas imputadas daquele país e depois dizem "eu não sabia". Minha filha de seis anos faz bobagem e depois diz "eu não sabia". Você compra cocaína para revender e depois que é pego diz "Eu não sabia que dá pena de morte"? Você não sabia que comprar e vender cocaína é crime? Em qualquer país do mundo?

Não sei, posso estar ficando velha e sem paciência, mas ando meio cansada de ouvir "eu não sabia".

Suzana Elvas disse...

E sim, você julga o ato, não a pessoa. Se assim fosse, crimes passionais ainda seriam passíveis de absolvição, porque o homem ainda usaria o surrado "privação de sentidos". O que a pessoa é pode ser usado como atenuante da pena, mas o ato em si permanece. No caso desse acusado, ele sabia que comercializar cocaína é crime. Pode ser legal, gente boa, mas estava cometendo um crime.

Na Indonésia as autoridades podem não ser "vestais" nem "arautos da virtude mundial"; não interessa: se a lei diz que você é fuzilado se for pego com drogas, você vai ser fuzilado se for pego com drogas.

O Brasil esperneou quando o governo canadense fez o possível e o impossível para levar de volta os dois canadenses envolvidos no seqüestro do Abílio Diniz. O argumento era "Vão morrer na cadeia brasileira." Especialistas diziam que se os dois praticaram o crime aqui devem cumprir as penas aqui; nada de o governo canadense se meter. Os dois sabiam que seqüestro é crime, e que seriam julgados pelas leis brasileiras e, se condenados, iam ficar numa cadeia imunda, superlotada, comendo lavagem de porco. "Bem-feito" emanava de todos as reportagens em jornais e revistas.

Por que temos atitude diferente com brasileiros que, culpados, são presos no exterior? O governo deve intervir em caso de penas de morte? Claro! O Brasil não extradita presos estrangeiros se o país de origem for aplicar pena de morte. Mas ao escolher praticar um crime num país que aplica a pena capital, você estará sujeito a essa lei. Não diga depois "eu não sabia".

Ivo Fontan disse...

Vamolá:
Primeiro o cara, em nenhum momento, declarou que "não sabia".
Segundo, usando seu próprio argumento, "o que se julga é o ato, mas o que a pessoa é pode ser usado como atenuante"
Terceiro, é praxe em países onde as penas são severas (não é o caso do Brasil), que a admissão de culpa livre o condenado da pena maior.
Agora, voltando ao segundo, o que fica claro é que na Indonésia não se JULGA. Aplica-se um MANUAL. JULGAMENTO implica sim em considerar-se a pessoa e todas as circunstâncias envolvidas no crime. Não tenho nenhuma dúvida de que, dadas as circunstâncias desse caso, em qualquer país (que se preze) esse rapaz seria sim condenado, mas em nenhum à pena máxima, fosse qual fosse.
Para praticar esse tipo de "direito" a Indonésia não precisa de advogados, promotores nem juízes. Só de burocratas e carrascos.

Suzana Elvas disse...

Sim, Ivo. É direito da Indonésia praticar qualquer coisa que julgue ser a prática do "Direito". A Indonésia é um país independente, que faz o que bem entende. Os EUA não assinam o Tratado de Kioto e continuam sendo os sujismundos do planeta. Em países árabes mulheres não dirigem. Como é direito da lei brasileira determinar que, ao ser condenado a mais de 30 anos, o preso tem automaticamente direito a novo julgamento - dane-se a dor da família da vítima.

O que eu disse foi: se você vai cometer um crime, assuma os riscos que isso acarreta. Se vai cometer um crime da Indonésia, que pratica um Direito que é qualquer coisa menos Direito, e ainda posto em prática por burocratas e carrascos, assuma as conseqüências. Se eu não admito ser subordidada ao machismo islâmico de certos países árabes vou escolher morar em um?

Como eu disse: o cara resolve vender drogas num país que não prima pelo bom senso do seu sistema judiciário?

Ivo Fontan disse...

Suzana, antes de mais nada quero dizer que adorei essa troca de idéias contigo. Afinal é para isso que existem os blogs, não é?
Mas voltando ao assunto, não tiro nem um pouco da tua razão, apenas deixo claro que não estou encabeçando nenhuma campanha para "pressionar" o governo daquele país, e, como eu disse, não conheço o cara nem sua família nem tenho procuração.
Só estou exercendo meu direito de opinar.
Afinal de contas, mesmo reconhecendo a soberania das nações nós não cansamos de "condenar" os EUA pela não adesão a Kioto?
Pois então, eu não abro mão de "condenar" a Indonésia pelo assassinato desnecessário (como se houvesse assassinato necessário!) de um cara que cometeu um erro.
Ainda mais quando esse erro é, na minha visão, muito menos grave do que o cometido pelo próprio estado indonésio quando massacrou covardemente uma boa parte do povo do Timor Leste!

Suzana Elvas disse...

Concordo com você, Ivo. Mas trabalhei em jornal por muitos anos (incluindo em Internacional) e sempre vi muita gente revoltadíssima com o tratamento dado a brasileiros que cometeram crimes em seus países. E sempre disse que, se você vai pra casa de fumante, agüente o hábito do anfitrião.

Uma coisa é você lutar por um julgamento justo, uma pena justa; a outra é dizer que o país está errado em julgar assim ou assado. Ele pode estar; podemos pressionar para que o que é determinado pela ONU em se tratando de direitos humanos seja cumprido. Mas tudo não invalida o real: o país é soberano para aplicar as penas determinadas para crimes cometidos dentro de suas fronteiras.

As prisões brasileiras estão cheias de "mulas" - a maioria mulheres pobres vindas de países da América Latina. Cometeram o crime, foram julgadas e condenadas.

Devemos gritar pela violação dos direitos humanos na Indonésia? Sempre! Mas não quando vamos interferir numa decisão soberana de um país cujo governo é reconhecido internacionalmente. O Itamaraty pode pedir clemência a ele - e que sirva de lição a outros brasileiros que acham que podem fazer o que quiserem no país dos outros.

Eu gosto muito daqui, Ivo. É um espaço muito legal para trocar idéias e cada um expor sua opinião. Sou mãe de duas meninas e já colhi indicações valiosas aqui.

Ana Cláudia Bessa disse...

Eu compreendo o ponto de vista de vocês dois e concordo com os dois:

Quem comete um crime no país dos outros, deve estar ciente das penalidades e arcar com as consequências. Neste aspecto, também não tenho pena.

Por outro lado, não devemos com isso, baixar a cabeça e achar que cada um tem direito de fazer o que quiser. Nosso governo deveria, sim, intervir para evitar , não a agonia do brasileiro unicamente, no corredor da morte mas para usar o caso do brasileiro envolvido para evitar que julgamentos sumários continuem acontecendo em pleno século XXI.

Suzana Elvas disse...

É o que o governo brasileiro está fazendo, Ana Cláudia; há uma divisão no Itamaraty que cuida de casos de brasileiros presos no exterior e, em casos de pena de morte, eles apelam até o último momento para que, ao menos, a pena capital seja comutada para prisão perpétua - o que dá tempo para que, posteriormente, seja permitido que o preso cumpra sua pena no Brasil (o que quase nunca acontece) ou, pelo menos, receba visita da família.

Ivo Fontan disse...

Suzana, dou-me por satisfeito quanto a este tema.
Fica-me a agradável sensação de que, em essência, a gente concorda um com o outro (assim como todos os que se manifestaram neste espaço) mas cada um, em função de suas experiências de vida, visão de mundo etc, enxerga ou enfatiza aspectos distintos dentro da questão que, de fato, é muito complexa e admite inúmeros pontos de vista.
O importante é que a gente se manifestou, de forma livre e soberana (e educada), como deve ser.
Espero poder debater mais contigo, como já fazemos habitualmente eu, a Ana, a Cristiane...

Ivo Fontan disse...

Mas continuo achando tudo o que eu disse sobre a Indonésia!!!