quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

1 ano sem João...

Foi este trágico acontecimento que desencadeou o que hoje é o nosso blog. Em lembrança a este dia, que nunca deve ser esquecido, coloco aqui um link para o texto sobre quando comparecemos á passeata que aconteceu 30 dias após a tragédia. Hoje, 1 ano depois, os assassinos foram condenados à pena máxima. Minha pergunta é: até quando vão ficar presos?

O menor de idade fica recluso por , no máximo, 3 anos. E os outros maiores de idade? A justiça pode permitir que eles saiam bem mais cedo do que as penas a que foram condenados, basta terem "bom comportamento". Essa é a nossa justiça.

Não podemos esquecer destes acontecimentos. Não, até conseguirmos mudar essa situação. Se o poder público não tomar conta, os bandidos tomarão, não há dúvidas. Eu já tive a violência bem perto de mim. Meu marido já foi assaltado com arma na cabeça duas vezes, na última, foi levado como refém (isso há uns 8 anos !!!). Minha mãe já foi rendida por menores que a ameaçaram com pedaços de caco de vidro, uma amiga teve a irmã vitimada naquele ônibus em que atearam fogo perto de uma universidade no subúrbio. Faleceu horas depois, vítima das queimaduras. No enterro, tinha meia-dúzia de repórteres e NINGUÉM dos DIREITOS HUMANOS.

Seis meses depois, essa amiga, levou um tiro na mão durante um assalto, durante sua tentativa de fuga. Foi em Sepetiba, num lugar ermo, que se ela ficasse , ninguém sabe o que o bandido faria com ela e com a enteada que estavam no carro. Ela quase perdeu a mão e a bala que ricocheteou dentro do carro, atravessou a perna da enteada. Eu já passei de carro no meio de um tiroteio na estrada Grajaú-Jacarepaguá e posso dizer que é desesperador. Me abaixei, acelerei e fiquei esperando sentir a dor, que graças à Deus, não veio. Aliás, é impressionante a dimensão do som de uma metralhadora, parece que está ao noso lado. Depois desse dia, eu que morava em Jacarepaguá, passei a me impor o limite de somente pegar este caminho, invariavelmente, antes das 21 horas. E cumpri à risca! Isso há muitos anos atrás. Hoje, nem sei. Acho que só passo de dia, e olhe lá.

Meu marido não usa a Linha Vermelha. E isso é uma tranquilidade porque quando o "bicho pega" por lá, e isso é muito comum, eu já sei que ele está fora dali. A Avenida Brasil, ainda é menos pior.

Mas o Rio está indo num galopar de insegurança onde os caminhos passam a não ter mais opção. A Linha Amarela é uma loteria da morte, a Lagoa Barra passa na linha de fogo entre favelas rivais como a Rocinha e o Vidigal. O alto da Boa Vista, que sempre foi uma opção, já está sendo manjado pela falta de policiamente e temos o recente caso do Lídio Toledo Filho.






Tragédias que nunca passam para quem as viveu.

Enquanto os políticos passam de helicóptero, literalmente, por cima dos cidadãos.

_________________________________________________________________________________ Ana Cláudia Bessa

Leia sobre o tragédia:
Criminosos sabiam que o menino estava preso ao carro
Relembre outros casos de violência
Cronologia dos ataques no Rio de Janeiro

8 comentários:

Lívia disse...

Ana,

gostei do post e entendo bem esse sentimento. Deixei o Rio há 3 anos e uma das razões foi a violência. Sofri com ela de diversas maneiras, como por exemplo o caso da Gabriela, que era aluna do colégio que eu trabalhava. Perdi amigos em tiroteio, já larguei carro em arrastão de túnel e fui correndo em direção ao nada, só pensando em continuar viva.

Mas acho que um esclarecimento precisa ser feito em relação aos grupos de direitos humanos, tão questionados hoje em dia. A categoría "Direitos Humanos" é internacional, ou seja, do direito internacional, e foi criada para defender os cidadãos dos crimes cometidos pelo Estado contra sua população. Por isso as entidades de Direitos Humanos não podem defender casos de violência como todos esses citados, por isso eles não se manifestam quando policiais são assassinados: porque não possui lógica nem validade jurídica. Nenhum desses crimes horrendos que vivemos hoje pode ser julgado como violação dos direitos humanos. Por isso ninguém entra com esse tipo de pedido na justiça.

A luta pelos Direitos Humanos é fundamental, principalmente se queremos um Estado verdadeiramente democrático.

Mas também é fundamental a luta contra bandidos e assassinos que não estão vinculados ao Estado.

Meu medo é que nós, vítimas deassa baderna que virou o Rio de Janeiro, ao continuar batendo de maneira erada nessa tecla contra as organizações de direitos humanos, continuemos a deixar impunes os grandes culpados: os políticos que não governam, que há décadas abandonaram o Rio e deixaram que ocorra essa instauração do caos.

Abraços!

Cristiane Fetter disse...

A Livia comentou uma coisa bem interessante que eu tambem confundia.
Este menino vai sempre ser um martir deste caos em que vivemos, mas que nao tenha sido em vao, pois muitos ficaram alertas ao cotidiano carioca e tambem aprenderam a valorizar o que tem de bom.
beijos Ana

Ana Cláudia Bessa disse...

Livia,

obrigada por nos ensinar o papel dos direitos humanos. Eu , de feto, nunca entendi direito e sua explicação foi perfeita!

Talvez se começássemos a entrar na justiça contra o estado, os Direitos Humanos pudessem intervir nessa bandalherias que os políticos estão fazendo com a nossa vida impunemente.

Anônimo disse...

Um ano SEM João Hélio... e ao mesmo tempo, um ano COM João Hélio...

na LEMBRANÇA, no CORAÇÃO, no EXEMPLO, nas diversas formas de protestos que verbalizamos e vivenciamos...

Estávamos lá naquela passeata onde fomos privilegiados por carregar nossos pequeninos nos ombros; e aqueles familiares de João Hélio, Gabriela e outros,...a tristeza de levarem os SEUS em fotos e cartazes.

Como a Ana disse, esse triste acontecimento nos fez repensar em diversos conceitos sobre a vida.

E, agora, depois de passarmos por muitas experiências como as da Lívia: passar em tirotei, ser levado até o topo do morro, perder carro/dinheiro/documentos; ter casa invadida, ver a polícia tratar com banalidade isso tudo e muito mais...

É João Hélio, você mudou nossa vida mesmo. Saímos do RJ definitivamente; ensaiamos essa saída em 2002 e efetivamos em 2007.

Mas como vcs três disseram (Lívia, Cris e Ana) acho que já está passada a hora de virarmos todas as nossas energias para cobrarmos dos políticos e das "autoridades" o que temos DIREITO por sermos HUMANOS.

Até breve,

Fabio (marido de Ana)

Solange Albuquerque Vieira disse...

Nós estamos em guerra civil há muito tempo. Não entendo porque as forças armadas já não são usadas para conter essa violência com sua "inteligência" e armamentos, comparáveis aos dos traficantes.

Ou onde estão as forças armadas que não coibem o tráfico de drogas, não fecham nossas fronteiras e inviabilizam a entrada do principal produto motivo de tanta barbárie!

Como se diz muito por aí: falta de vontade política.

Parabéns pelo blog.

Ana Cláudia Bessa disse...

É , amor, nosa vida mudou mesmo, né?

Estou muito feliz que tenhamos tido coragem de fazer tantas mudanças na nossa vida, começado o blog, enfim...não me sinto estagnada diante de tudo isso.
Fazemos pouco mas fazemos alguma coisa.

Te amo.
Beijos!

Ana Cláudia Bessa disse...

Solange, obrigada.
Eu me faço as mesmas perguntas que você!

Nosso país tem condições de mudar tudo, não muda porque não há interesse político no progresso coletivo, só no individual.

matteo irma disse...

É uma tristeza muito grande, Ana. Viver com medo, e anestesiados. Há um tempo atrás li um post do Alez Castro (Liberal, Libert'rio, Libertino) que me fez pensar e acabei tb escrevendo no meu blog sobre isso. Alem do medo, vivemos meio que insensíveis à miséria que nos cerca, que é no fringir ods ovos a grande causa de violência e responsável pela situação que vivemos hoje. Reverter essa situação depende principalmente do poder público, que deveria agir em todas as esferas e em diversas áreas, com medidas de longo, médio e curto prazo, igualmente importantes. Mas depense de nós tb. De que adianta reclamar da violência, se nada fazemos a respeito? De que adianta reclamar da corrupção se, em proporções menores, tb agimos ou somos coniventes com pequenas corrupções em nosso dia-a-dia. nãstou falando de mim ou de vc, mas do povo em geral.
Gosto muito de seu blog por isso, é uma iniciativa pra melhorar o mundo, por um futuro melhor para nossos filhos. Eles nos dão força pra lutar, não é mesmo?
beijos
Renata