quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

SER OU NÃO SER REVOLUCIONÁRIO...

"Reciclando Textos"- 01/10/2006


Adolesci (se é que existe o verbo. Se não eu acabei de inventar) e tornei-me homem no auge dos "anos de chumbo" e na "capital cultural" do país. Como se não bastasse fiz Escola Técnica (ETQ) em plena efervescência do governo Medici. Testemunhei inúmeros colegas aderindo aos também inúmeros movimentos da chamada "luta" contra a ditadura. De minha parte, nenhum chamamento (e existiram muitos) foi suficientemente convincente para me fazer acreditar em propostas ou ideologias capazes de me colocar nas mãos armas ou panfletos.


Particularmente uma coisa sempre me chamou atenção: Quanto mais radical era o discurso contra o vigente "regime militar" maior era a "militarização" do grupo! Hierarquização exasperante, doutrinação, obediência cega, missões... Eu sempre tive a impressão de que se o lado da "luta" vencesse não seria muito diferente de uma troca de seis por meia dúzia!


Enfim, ideologias e doutrinações à parte, uma coisa sempre foi muito clara para mim: Quem entrava para o "movimento" o fazia por crença, fé, convicção inabalável. Tive, repito, muitos amigos que entraram e, tenho certeza, todos tinham absoluta consciência dos riscos que assumiam e corriam! Ninguém acreditava que pudesse ser "acariciado" caso fosse pego! Era papo de "macho" (independente de sexo)! Tô dizendo isso pelo seguinte: Não conheci ninguém que tenha entrado na "luta" com a ilusão de que estava empreendendo uma "cruzada". Todos tinham consciência de que tinha sangue pra rolar, dos dois lados, e o seu próprio era o mais provável. E o agravante: Por maior que fosse a ideologia, o lado da "legalidade", por mais que isso revoltasse, era o do "regime". Fora disso era a "subversão" e a "clandestinidade". Méritos à parte.

Por isso é que sou inteiramente contrário às indenizações, subvenções e reparações, em particular as de ordem financeira, aos "sobreviventes" da "luta".
Vejam bem, é bem diferente dos casos de INJUSTIÇA, isto é, pessoas que INJUSTIFICADAMENTE foram perseguidas, perderam seus empregos, sua liberdade etc. A esses toda a reparação possível, inclusive financeira!Aos engajados, nosso respeito pela coragem, pela capacidade de crer e lutar por suas crenças. Grana? Vão cobrar dos líderes de seus movimentos, e não do governo (meu, seu, nosso dinheiro) pois EU não passei procuração para ninguém “lutar” por mim ou pelo que supostamente eu acreditava ou deixava de acreditar!
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

9 comentários:

Ana Cláudia Bessa disse...

Não sei, Ivo.

Não sou dessa época mas a luta foi limpa e justa?
Os direitos civis desses "lutadores" foram preservados?
As leis foram seguidas e ninguém foi beneficiado em desigualdade?

Os pais e mães de família que morreram nas mãos do governo fizeram falta financeiramente para suas famílias? (Nem vou comentar o emocional pois estamos falando de danos e reparações financeiras).

Eles sabiam dos riscos, mas mesmo assim, alguém tem o direito de lhes tirar seus direitos por causa disso? Ainda mais o governo?

Não sei...não sei....

Lívia disse...

O fato de saberem do risco não justifica a ação violenta e terrorista do Estado brasileiro. Seria mais o menos a mesma coisa que hoje afirmar que não podemos condenar um político corrupto se ele já tinha acusações de corrupção antes de ser eleito.

O Estado Militar brasileiro instaurou a tortura, desaparecimento forçado de pessoas, ou seja, um terrorismo estatal. É contra isso que se luta.

Sou historiadora e estudo justamente esse período. A verdade é que no Brasil a transição foi feita de maneira tão lenta e controlada pelos militares, que a memória que ficou foi a de jovens rebeldes e militares não tão malvados assim, especialmente se comparados com as outras experiências da América Latina (como o caso da Argentina, onde são 30.000 desaparecidos).

O Estado tem o dever de prender e JULGAR criminosos, não de instaurar o terrorismo e assassinar seus cidadãos. Essa é a tão discutida questão dos Direitos Humanos.

Anônimo disse...

Em que pese a opinião sincera emitida, não posso deixar de lembrar que, apesar de o Estado ter aquelas características, naquele momento, as condutas adotadas (toturas, desaparecimentos, mortes, etc)não tinham nenhum respaldo legal, eram e ainda são considerados crimes naturais, universais. Nenhum Estado decente, nehuma religião, credo ou crença, acolhe a idéia de mutilar ou exterminar seres humanos.

Luiz Guilherme Ourofino

Geo disse...

Meu pai foi deposto em 64 quando era marinheiro. Ele não fez revolução, foi induzido ao erro porque a marinha queria um motivo para fazer a revolução. Depois disso nunca conseguiu um emprego de carteira assinada, passou no concurso do BB e no outro dia seu nome sumiu da lista de aprovados. Por essas e outras tenho certeza que a anistia que ele recebe hoje é muito mais do que válida. A revolução foi ganha e, quem antes morria e sofria, hoje tem o mérito da luta. A anistia salvou a vida de meu pai e veio num momento mais que certo.

Ivo Fontan disse...

O texto publicado não está completo. Não sei se por erro meu na hora de enviar. É provável. Aí abaixo vai o último parágrafo:

"Vejam bem, é bem diferente dos casos de INJUSTIÇA, isto é, pessoas que INJUSTIFICADAMENTE foram perseguidas, perderam seus empregos, sua liberdade etc. A esses toda a reparação possível, inclusive financeira!
Aos engajados, nosso respeito pela coragem, pela capacidade de crer e lutar por suas crenças. Grana? Vão cobrar dos líderes de seus movimentos, e não do governo (meu, seu, nosso dinheiro) pois EU não passei procuração para ninguém “lutar” por mim ou pelo que supostamente eu acreditava ou deixava de acreditar!"

Ivo Fontan disse...

Creio que o complemento do texto contempla plenamente o caso exposto no comentário de GEO.

Ana Cláudia Bessa disse...

Gente,

Não sei o que aconteceu mas a última parte do texto do Ivo, não apareceu no blog. Provavelmente, foi falha minha, pela qual me desculpo sinceramente.

Geo disse...

Com certeza isenta o meu pai e muitos (eu nem sabia que eram tantos) marinheiros.

Eu ainda prefiro acreditar que se governo achar que essas pessoas merecem anistia é porque merecem. Os casos são analisados por juízes que foram colocados lá por concurso e mérito (ao menos na teoria), por isso creio que a justiça prevalece quando a anistia é dada.

Ivo Fontan disse...

Anistia não tem nada a ver com indenização!!!