quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

SE DIRIGIR NÃO BEBA?

Sempre que vejo as propagandas de bebidas alcoólicas me pergunto: Não seria melhor se o slogan da campanha fosse SE DIRIGIR NÃO BEBA?

Não posso crer que os integrantes das agências de publicidade e mesmo o próprio governo não tenha percebido essa diferença sutil.

Penso nisso porque fiquei chocado ao ver a fotografia da capa do Jornal O Globo de 12/02/2008. O interior de um carro, totalmente destruído, com um engradado de cervejas no porta-malas, que tamanha a violência, estava espremido próximo ao banco do motorista. Assim dizia a manchete: Acidente mata 5 jovens em SP. Moças saiam de um churrasco e o carro delas estava na contramão. Eram sete moças dentro do veículo, cinco morreram. Imediatamente me lembrei que não faz muito tempo o Presidente Lula editou uma Medida Provisória proibindo a venda de bebidas alcoólicas nas estradas. Pois bem, fui pesquisar e encontrei a MP nº 415/2008, entrando em vigor a partir do dia 01/02/2008.

Pasmemos, a legislação não tinha nem quinze dias de vida e já percebemos que nada resolverá.

O problema é essa mania dos nossos representantes de querer resolver as coisas através de lei; como se os hábitos e costumes pudessem ser alterados da noite pro dia. Isso faz lembrar da história de um deputado que queria editar uma lei proibindo a seca no sertão.

Esquecem-se, entretantanto, os nossos digníssimos representantes que vivemos em um Estado democrático e de Direito, queiram ou não, e mesmo que o Poder Executivo encaminhe uma medida provisória ao Congresso Nacional para coibir a venda de bebidas alcoólicas nas estradas brasileiras, como de fato o fez, é muito provável que isto será declarado inconstitucional pelo nosso poder judiciário. Nesta linha, já começamos a observar a concessão de liminares permitindo a venda destes produtos em tais estabelecimentos. Exemplo recentíssimo – hoje 12/02/08 - foi do supermercado Carrefour, que inconformado, pediu a liberação da venda em seus estabelecimentos próximos às rodovias federais no que foi atendido pela Justiça Federal.

Nossa Constituição Federal é a nossa Lei Maior, a Lei das Leis, também chamada de Carta Magna, e foi nela que nós escrevemos todas as regras básicas de direito que nosso povo quis para si em dado momento da nossa história. A nossa constituição não é muito antiga comparada a outros países, completa neste ano de 2008 seus vinte aninhos.

Apenas fazendo um parêntese, e para melhor esclarecer aos mais interessados, essa tal Medida Provisória fere de morte princípios de ordem constitucional, tais como: princípio da isonomia (os iguais devem ser tratados com igualdade), assim, os estabelecimentos marginais não podem ser tratados em desigualdade aos estabelecimentos situados a apenas poucas quadras da rodovia; princípio da livre iniciativa da atividade econômica (o Estado não pode se imiscuir na atividade empresarial regularmente estabelecida – arts. 5º, inc XIII; 170, inc. IV, § único), dentre outros.

Voltando ao tópico, ao que parece, as meninas sequer haviam comprado as bebidas na rodovia, pois saiam de uma festa e se dirigiam para casa.

Então? Como minimizarmos este tipo de tragédia? Será que com leis? Ou será que com mais educação e maior certeza da punição?

Pra encerrar, fique claro que a Polícia Federal não tem atribuição/competência para fiscalizar estabelecimentos comerciais nas margens das estradas ou em qualquer outro lugar.

Aos nossos dirigentes digo: SE BEBER NÃO DIRIJA!

_______________________________________________________________________________ Luiz Guilherme Ourofino

9 comentários:

Cristiane Fetter disse...

Oi Luiz Guilherme, bem vindo.
Você mesmo deu a resposta, com educação, muita educação, massificando isso nas escolas, mas multando os "adultos" que ainda não entendem o recado.
Quando o adulto sente no bolso ele obedece e a criança quando ensinada desde pequena aprende.
Abraços

Ana Cláudia Bessa disse...

Oi, Guilherme!!!!!!

Seja muito benvindo ao nosso blog!
Adorei seu tema porque infelizmente as pessoas que bebem e gostam de beber, sempre acham que conseguem dirigir, que estão bem, etc, etc, etc.

É isso aí, se beber, não dirija.

Contudo, vejo essas campanhas que estamos vendo no jornal de forma cautelosa porque não acredito que a maior causa de acidentes seja a bebida. A maior causa de acidentes são as péssimas condições das estradas! Me dá a sensação de que essas campanhas contra a bebida são um pretexto para mascarar a realidade e o drama vivido por quem tem que encarar uma estrada no Brasil.

Já morei fora e viajei bastante de lá prá cá, tenho família fora e o pouco que já vi diante da imensidadão da malha viária desse país, posso dizer: nossas estradas são uma merda!

Cenas como as do jornal, de um acidente com morte e um engradado de bebida na mala são bastante convenientes para aqueles que querem pregar que os maiores responsáveis pelas mortes nas estradas são os cidadãos que bebem. E são responsáveis, mas não são os maiores.
Os maiores são os políticos!

Silvia D. Schiros disse...

Luiz Guilherme,

Que bela estréia, hein? :-)

Chovendo no molhado, não tem o que tirar nem pôr: o problema, não só dos motoristas que põem em risco suas vidas e as de terceiros, mas de muita gente, em muitas situações, é falta de educação. Falta a essas pessoas conscientização. As pessoas precisam assumir responsabilidades. Precisam ser responsabilizadas e cobradas. (Inclusive nossos políticos, né, Ana?)

E, quanto mais jovens somos, menos achamos que podemos morrer. Quantas vezes, na juventude, tentei convencer amigos que não estavam lá muito sóbrios (pra ser gentil) a entregarem as chaves do carro para outra pessoa? Quando alguém já está pra lá de Bagdá, difícil convencer essa pessoa de que ela não tem condições de dirigir. Morro de medo disso com minhas filhas. Certo estava o pai de uma amiga minha: independente da hora, bastava ela ligar que ele a buscava. E ainda dava carona pro resto da turma. Santo Décio. :-)

luma disse...

Corretíssimo! Educar não é proibir!
Tal qual as campanhas que estampam pessoas doentes nas embalagens de cigarro, um acidente como esse, deveria fazer parte de campanhas mostrando os prejuízos que beber ao dirigir acarretam e pagando o usuário com sua vida.

paola oliveira disse...

Luiz,

parabéns pela estréia!

Achei muito legal seu post porque ele fala inclusive das questões legais que envolvem essas determinações.
Muitas vezes a gente se revolta porque as leis têm "brechas" mas também as determinações são feitas de modo errado, visto que já são contrárias as leis existentes.

É preciso também saber fazer a lei com competência. Fazer por fazer, é com entedi do seu texto, tem grandes chances de não dar em nada!

Será que não é isso mesmo que os políticos querem: fingir que estão fazendo?

Geo disse...

Oi Luis. Gosto muito desse blog e estou vendo que veio somar.
Vi essa notícia e foi realmente triste ver meninas lindas morrendo dessa maneira.
Quando eu, vc ou outra pessoa anda com cinto de segurança, não bebe se for dirigir, não mata, não rouba, usa camisinha, etc, não faz porque a lei nos obriga a isso, mas porque houve uma conscientização familiar e governamental, ao longo desses anos, para que isso se tornasse realidade.
Por isso acredito que campanha e educação ainda são a solução. Infelizmente essas jovens fizeram o seu destino e pagaram, da pior forma, pelos seus erros sem ter a chance de aprender com eles.

Ivo Fontan disse...

Bela estréia, Luis. Seja muito benvindo.
Seu texto complementou brilhantemente um post recente meu.
Estou contigo e não abro!

Sam disse...

Eu acompanhei os primeiros dias deste acidente e confesso que quero saber quando sair a dosagem alcoolica delas. Infelizmente no trânsito estamos sujeitos a muitas coisas e não dá para culpar as moças antes do laudo. A dona da casa onde foi a festa alegou que só tinha um engradado de bebida para a festa toda e devia ser exatamente este. Enfim, não devemos deixar os filhos largados, pensem como podiam os pais acharem certo deixar 7 moças num carro só e possivelmente alguns nem conheciam a motorista que levou a filha num passeio fatidico.
O certo é realmente não dirigir e dar o exemplo. No final de semana retrasado fui a uma festa sozinha com meus filhos e fiquei falando para eles: viram, quando a mamãe dirige, não pode beber. Aí neste final de semana eles cobraram o mesmo do pai! O caminho é esta conscientização e o cuidado na vida em familia.
Abraços.

Ana Cláudia Bessa disse...

Gente, nãoo podemos deixar de lembrar um exemplo de acidente causado por bebida que está permanentemente no nosso blog que é o da Jacqueline Saburido - http://www.helpjacqui.com :

As imagens são chocantes e muito tristes. E é tudo verdade. Em 1999, na cidade de Austin, Texas - EUA, um motorista embriagado provocou acidente que desfigurou uma venezuelana de 20 anos que hoje, corajosamente se expõe e se empenha em prol da conscientização. Um ser humano de admirável coragem e força. A maioria se entrega, enquanto poucos como ela se doam pela coletividade, para “fazer o bem sem olhar a quem”. A história e as imagens serviram para uma campanha onde o rosto deformado é mostrado com a legenda: Nem todo mundo que é atingido por um motorista bêbado morre.