segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

FUTEBOL E CIDADANIA

Pelo país inteiro contam-se às centenas (talvez milhares) os projetos voltados para crianças, que utilizam o futebol como elemento de "inclusão" social. São iniciativas governamentais, de ONGs especificamente constituídas para essa finalidade, de clubes desportivos, particulares (ex-atletas, treinadores e outros profissionais de alguma forma ligados ao esporte), etc. Todos, indefectivelmente, empunhando o estandarte do esporte como agente da cidadania, da formação do caráter, pa-rá-rá, pa-rá-rá, pa-rá-rá...

Eu, particularmente, acho que o que "inclui" é educação, de forma ampla (e o esporte é apenas uma parte disso), mas reconheço o valor relativo de se propiciar atividades esportivas a crianças de comunidades pobres ou marginais como forma de transmitir determinados valores e, mesmo, em situações extremas, ocupar o físico e a mente de jovens que vivem perigosamente próximos da fronteira entre o "certo" e o "errado", socialmente falando. Até aí tudo bem, mas será que o chamado "nobre esporte bretão" é o mais indicado para isso?

Vou tentar explicar melhor. Minha dúvida não é quanto ao valor do futebol, enquanto esporte, já que, como qualquer esporte, sujeita os praticantes a regras definidas, comportamentos, disciplinas etc etc etc. Em tese é interessante oferecer aos jovens uma atividade em que se exercitem essas coisas. Mas o futebol? Pelo menos essa coisa que hoje se pratica pelos estádios do mundo sob essa denominação?

Vejam só algumas coisinhas: "A regra é clara", como diz um conhecido comentarista de arbitragem e ex-árbitro de futebol, não é mesmo? Pois bem, o "livrinho" está lá dizendo tudo o que pode e o que não pode, o certo e o errado, não é? Pois bem, e o que faz a maioria dos jogadores durante a maioria dos noventa e tantos minutos de uma partida senão tentar burlar não só o livrinho como o bom senso, a inteligência, a ética e, não raro, até mesmo a lei!
Exagero? Vamos falar a verdade.
Você já viu um espetáculo de dissimulações, fingimentos, fraudes, oportunismos maior do que uma partida de futebol?

Já viu um jogador cobrar uma falta do exato local onde ela foi cometida?

Ou uma cobrança de lateral do ponto onde a bola saiu?

Já viu um jogador de time que está ganhando sofrer uma falta leve e não se "esborrachar" no chão fazendo caretas horrendas se contorcendo como se tivesse sido atropelado por um trator desgovernado?

Já viu algum deles fazendo um gol em impedimento ou com ajuda da "munheca" e acatando a marcação do árbitro (já nem digo "se acusando")?

Ou um goleiro que não avance dois ou três passos antes da cobrança de uma penalidade máxima?

Ou uma barreira que não "cresça" diante de um cobrador de falta?

Isso e muito mais só para citar o que acontece dentro de campo. E as atitudes (e as instruções) dos treinadores? E dos dirigentes, antes, durante e depois das "pelejas"? Tente se lembrar de uma atitude que você possa classificar como ética ou desportiva, partida de um "boleiro", que você tenha testemunhado dentro das chamadas "quatro linhas" nos últimos anos!

O que dizer então do comportamento de atletas, dirigentes, treinadores, agentes, assessores etc, fora de campo? Já viu algum deles declarar o que realmente ganha para a receita?
E o beijinho no "escudo" na comemoração do gol? Já viu falsidade maior? Aliás, eu não me lembro de ter visto o Pelé ou o Zico beijarem o escudo do Santos ou do Flamengo para comemorar gol! Em compensação posso citar uns vinte que, últimamente, beijaram pelo menos cinco escudos diferentes em duas ou três temporadas!

Pois é, você ainda acha que esse é o melhor esporte para ensinar cidadania a uma criança?
__________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

2 comentários:

Lívia disse...

post interessante, mas discordo. Não acho que porque o futebol seja "usado" de maneira negativa por seus profissionais ele deva ser entendido dessa maneira.

Penso mesmo das ONG. O fato de que exitam as corruptas não justifica que eu diga aos meus filhos e seus amigos que juntar-se dessa maneira está errado, porque os outros o fazem errado.

Cabe aos profissionais que incluem e ensinam cidadania à estas crianças em situação de risco mostrar que eles possuem outro caminho a seguir, o do companheirismo, da honestidade, da ética.

O problema, Ivo, não é o futebol... mais uma vez o problema é o ser humano. E acho que usar o futebol no que ele tem de positivo, combatendo tudo isso que você escreveu, é a melhor maneira de acabar com tantas coisas erradas.

abraços!

Ana Cláudia Bessa disse...

Além do que você mencionou tem ainda a questão dos altos salários do futebol. Os meninos, desde cedo, embarcam neste sonho que é uma verdadeira loteria, na ilusão de que é um dinheiro fácil.

Os atletas viram mercadorias. Aqui em casa temos um exemplo e meu enteado querido, mesmo não jogando profissionalmente, só pode se transferir de clube (ele é federado) mediante pagamento. Um absurdo fazerem isso com um menor de idade, contudo, estamos numa "lei de mercado". Não pagamos e ele treina em outro clube sem se federar, até que possa se decidir sobre que caminho ele quer realmente seguir pois ainda está dividido entre o esporte e a computação. Direito irrevogável dos seus 14 anos!