terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

SEM TÍTULO, SEM NADA!

Alexandre era uma espécie de irmão mais novo para mim. Digo "uma espécie" porque não fomos criados juntos. Minha mãe o criou depois que eu já estava casado. Aos vinte e tantos anos Alexandre tornou-se policial civil. Como fruto de um casamento mal sucedido, Alexandre teve um filho que, por reviravoltas do destino, veio parar também na casa de minha mãe, onde já está há uns três ou quatro anos.

Como minha mãe mora num dos muitos bairros do Rio "dominados" pelos verdadeiros donos desta cidade - os bandidos, as visitas de Alexandre ao filho eram sempre muito rápidas e cercadas de tensão, pois a bandidagem local não "toleraria" um "cana" na área. Mesmo sendo ele nascido e criado ali.

Confesso que esta situação me causava apreensão. Temia receber a notícia de que ele havia sido emboscado na porta de casa. Não chegou a acontecer isso. Mataram Alexandre em outro bairro, num rotineiro assalto. Descobriram que ele era policial e, embora desarmado, o fuzilaram, do jeito que todos nós já sabemos.

Os jornais não noticiaram e nenhum representante dos defensores de "direitos humanos" compareceu a seu funeral. Seu filhinho, perplexo, não consegue entender porque os "homens maus" levaram seu papai. Minha mãe, que já perdera seu filho mais velho (meu irmão) há pouco mais de um ano, está mal, muito mal. Temo por sua saúde física e mental.

Esta é a desgraçada realidade do Rio. Não há horizonte. Não há esperança.

Não há nada, além de dor, revolta, impotência, desespero!

________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

10 comentários:

Anônimo disse...

É Ivo,..., nem sei o que te dizer nesse doloroso momento.

Imagino o que é perder um irmão nessa banalização do desrespeito à vida humana.

A crueldade está em nossas portas.

A POLÍCIA, os POLÍTICOS e os BANDIDOS estão lutando por seus espaços e o resultado será sempre esse... lamentável.

É mais um policial que oferece a sua vida em defesa de um ser humano "indefeso"...

Estamos contigo da maneira que você precisar...

Forte abraço

Fabio

Silvia D. Schiros disse...

Nossa, Ivo... Não sei o que dizer.

Só posso desejar força a você e aos seus.

Ana Cláudia Bessa disse...

Ivo,

sua tristeza e o sofrimento de sua mãe (agora totalmente responsável por um menor) vai virar mais um número nesta situação absurda que é o que você relatou: os bandidos não toleraram um policial "em sua área".
Isso já é um absurdo que não tem tamanho. Culminar na morte de uma pessoa, beira a a selvageria.

Os DIREITOS HUMANOS , pelo que nos explicou a Lívia, no post do João Hélio esta semana, só trata de crimes cometidos pelo estado. Neste caso, eu acredito que este seja um crime comentido pelo Estado, afinal, deixar que um bairro, uma cidade, ou qualquer lugar seja dominado pelos bandidos, e um policial civil ser assassinado somente por ser policial (já que nem estava a serviço) é culpa do Estado.

Força, coragem e estamos aqui, conte com a gente.
Estamos orando para que sua mãe consiga superar este momento.

Um grande e apertado abraço.

Cristiane Fetter disse...

O pior é saber que existe solução para isso, só não existe quem resolva iniciar o processo.
Eu não entendo.
Não é a toa que estamos adorando a baixa criminalidade da minha cidade.
Meus mais sinceros sentimentos Ivo.

Cleite Fontenele disse...

Ivo,
Primeiro, que Deus dê forças para você e sua familia neste momento...
Infelizmente não consigo ver um horizonte bom sobre isso. No dia que fomos assaltados (eu, marido e filha de 3 anos), em novembro passado, os caras não levaram o carro. Estavam alucinados e acho que procurando algum PM para matar, porque naquele dia tinha acontecido uma ação policial no complexo do alemão, aqui perto. Pediram a carteira o tempo todo, abriram a carteira (acho que procurando uma identidade policial) e sairam, levando 40,00 e os documentos do meu marido. Se eles queriam apenas dinheiro e abriram a carteira, viram que era pouco... O caro zero ficou... Agradeço a Deus todos os dias por ter nos poupado de um sequestro relampago, ou uma violência ainda maior do que aquela. Minha filha até hoje fala nos homens bobos e malvados que levaram a carteira do pai e não paravam de gritar. Não sei o que fazer. Mas tenho muito, muito medo mesmo. Força e Luz para vocês.

Geo disse...

Sinto muito por tudo. A gente vê e ouve a violência na TV, mas nunca imagina achá-la tão perto de nós.
Meu noivo foi PM e sei um pouco o que é a vida dessas pessoas que, embora lutem por um lugar melhor e pelo bem da comunidade, são sempre mal rotuladas pelos cidadãos e pelos bandidos.

Ivo, diz a seu sobrinho que a vida é mais que isso. Ele não precisa aceitar que seja assim. Que ele deve estudar para sair de onde vive, ser um procurador, juiz, um médico, engenheiro ou qq coisa que queira e ser bom no que faz. Assim mudamos esse mundo. Se ele perde a esperança, aí fica pior.

Abraço.

Ivo Fontan disse...

Valeu. Obrigado a cada um de vocês.
Não fiz este post para compartilhar tristeza. Fiz porque reportei-me à origem do blog; A morte do João Hélio, e ao objetivo da criadora, Ana, e de todos nós: A luta por um futuro melhor para nossos filhos.
Fiz para mostrar que, por mais que estejamos nos esforçando, continuamos PERDENDO.
Perdemos para políticos desonestos, para monstros sanguinários que infestam as ruas. Perdemos para o pânico (quer na forma sofisticada da "síndrome" quer no seu estado bruto).
Perdemos para nossa própria incapacidade de perceber o tamanho da tragédia em que vem se transformando nossas vidas.
Perdemos para nossa camaleônica capacidade de aceitar e assimilar o apodrecimento de nossa sociedade.
Perdemos para a nossa teimosia em não enxergar que o porvir é ainda pior do que o que aí está.
Não sei o que fazer para virar este jogo e começarmos a ganhar. Mas de uma coisa tenho certeza: Não é do jeito que temos feito até aqui!

ana cláudia bessa disse...

Você está COBERTO de razão!

Lola disse...

Infelizmente as coisas andam assim... Mas, não devemos aceitar isso, por este motivo devemos sempre gritar: NÃO à violência...
Estava fazendo um post a este respeito quando resolvi ler aqui...
Se quiser dar uma olhadinha:http://umaconscienciacoletiva.blogspot.com

Beijos.

Lola disse...
Este comentário foi removido pelo autor.