terça-feira, 18 de setembro de 2007

MODERNIDADE X SUSTENTABILIDADE

Uma famosa “chef” de cozinha me disse uma vez que estava às voltas com um dilema e não sabia como resolver. A situação era a seguinte:

Em seu restaurante (um dos top ten) do Rio, ela disponibilizava muitos condimentos finos, em grande parte importados, para os clientes. Estes condimentos eram acondicionados em potes, frascos etc, condizentes com o “nível” do restaurante. Acontece que os fiscais da Vigilância Sanitária a haviam INTIMADO a disponibilizar estas iguarias em...SACHÊS individuais! obedecendo à legislação vigente.

O dilema era que, além destes produtos não serem comercializados neste tipo de embalagem, ainda havia a questão de aceitabilidade por parte dos clientes, em sua maioria apreciadores da boa mesa e da boa gastronomia (onde a palavra SACHÊ é quase heresia).

Não sei como ela resolveu o problema, mas o fato é que o seu “dilemazinho metido a besta” me fez pensar mais profundamente sobre o assunto. Fiquei pensando nas razões que levaram os órgãos normatizadores a fazerem tal exigência. Segurança Alimentar, claro! O “sachê” é muito mais higiênico, certo?

É, mas e o lixo? Que lixo? O lixo que isso gera? Para onde vai cada “sachezinho” que você usa numa refeição? Esses “sachezinhos” são recicláveis? Você já viu “catadores de sachezinhos” pelas ruas?

Gente, em tempos como os que estamos vivendo, vocês realmente acham que é “ambientalmente correto” criar normas que tenham como consequência a maior geração de LIXO?

Fala sério?

Porque não deixar os restaurantes disponibilizarem seus temperos e condimentos em embalagens tradicionais e fiscalizar as condições higiênicas DESTAS embalagens?

São pequenas coisas como essas que revelam o quanto nossos hábitos supostamente modernos e evoluídos são, na verdade, PERDULÁRIOS. O quanto somos contraditórios e o quanto estamos realmente longe da tão decantada e propalada SUSTENTABILIDADE!__________________________________________________________________________________ Texto de Ivo Fontan

8 comentários:

Silvia D. Schiros disse...

Fora, Ivo, os interesses econômicos envolvidos, né?

O fabricante de sachês faz um lobby junto a um político qualquer e pronto, tá lá a lei completamente sem sentido aprovada!

É triste, viu? Há muito caminho pela frente...

Geo disse...

Penso muito nisso que você escreveu. Geramos tantos lixos sem necessidade. Aqueles sachês plásticos de maionese e catchup, copos plásticos (poderiam ser com papelão de reflorestamento), vasilhas de quentinha de metal. É tanto lixo desnecessário que jogamos no mundo a ainda falamos em ecologia. Precisamos mudar nossos conceitos e fazer nossa parte antes que seja tarde.

Mercedes disse...

Sem falar que eu tenho sérias desconfianças em relação ao manuseio desses saches, porque o conteúdo entra em contato com o lado externo da embalagem imediatamente na hora em que é aberto. Com o acondicionamento tradicional isso não acontece.

Cristiane A. Fetter disse...

Eu acho que a gente não pode se sentir culpado com essas coisas. Infelizmente a evolução humana nos trouxe este dia-a-dia e a gente acaba se acostumando.
O interessante é ler um texto assim e entender que não precisamos viver com isto. É conseguir reverter este processo, pois ainda existe tempo.
É conseguir entender esse ciclo.
É procurar ou desenvolver formas de viver sem depender tanto dos produtos que vieram "facilitar" a nossa vida.
E eu posso dizer uma coisa, a gente se acostuma e até se diverte.
Abracos Ana.

Ana Cláudia Bessa disse...

Oi, Ivo!
A gente vive falando nisso aqui: nos detalhes do consumo que nem sempre percebemos o quão nocivo é para nossa sociedade.

O ponto é esse que você falou: se o sachet é mais higiênico mas polui, vamos ficalizar as embalagens a granel que têm que ser OBRIGATORIAMENTE higiênicas!
Ponto.

Ainda somos a geração do descartável.

Foi na nossa geração que essa praticidade explodiu. Nossos pais não viram o futuro e aceitaram isso como sendo uma coisa benvinda e nos acostumamos com isso. Cabe à nós agora mudar.

Hoje mesmo fui tentar consertar uma cadeira de escritório e a moça da loja tentou me vender outra, querendo insinuar que o conserto não valia a pena.

Eu expliquei para ela que uma cadeira nova, realmente seria melhor, mas para onde eu mando a cadeira quebrada? Para o lixo?
E o meu bisneto, tataraneto estão sentando nas milhares de cadeiras que forem jogadas no lixo hoje.

De novo, cara de ET da mulher...

Ivo Fontan disse...

Silvia, você acertou no alvo quando falou em "interesses econômicos".
A Chef a que me refiro no post, na época disse a mesma coisa.
E não é só isso não. Muita gente (ligada de alguma forma a governantes e parlamentares) ganhou - e continua ganhando - muita grana por conta dessa tal "Segurança Alimentar"!
Em tempo: Não sou contra ações que visem este objetivo. Mas não sou idiota. Existem AÇÕES e AÇÕES!

Anônimo disse...

Como assim, ganhando muita grana com "segurança alimentar" ?

Ivo Fontan disse...

Vou explicar:
Se o caro anônimo é "da área" deve saber que o conceito de segurança alimentar chegou ao nosso país no embalo da técnica conhecida inicialmente como ARPCC (Análise de Riscos e Pontos Críticos de Contaminação), que era um sistema de controle da HIGIENE na produção de alimentos e também no setor de alimentos prontos (cozinhas). Este sistema evoluiu para o que hoje se conhece como APPCC (ou HACCP, na sigla inglesa).
A implantação deste sistema é uma espécie de primeiro passo para a implantação das chamadas "Boas Práticas de Fabricação", hoje um impositivo legal para o funcionamento das indústrias de alimentos e comercialização de alimentos prontos.
Até aí tudo bem.
Ocorre que, a partir da imposição legal, proliferaram pelo país a fora "instituições" prontas a prestar este "serviço". Algumas sérias outras nem tanto...
Hoje o conceito de "segurança alimentar" expandiu-se e engloba não só qualidade como o próprio "direito à alimentação", como preconiza o Fome Zero.
Por conta disso, dezenas (talvez centenas) de "programas" governamentais foram criados, nos três âmbitos de governo. Obviamente, como qualquer programa governamental, com suas respectivas "dotações orçamentárias".
Onde há dotação orçamentária, claro, surge uma disputa feroz para abocanhar nacos desta grana.
Daí que...
Hoje estamos estamos "cheios" de ONGs, instituições, consultores, etc, espalhados por aí "ministrando" treinamentos, capacitações etc, na área de Segurança Alimentar. Alguns, repito, são sérios, como o programa Alimentos Seguros, do Sistema "S" (Senai, Senac etc), já outros são pura picaretagem, criados apenas para "mamar nas tetas" dos governos que os patrocinam.
É isso!