segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Quem sou eu?

Faz 1 ano e 9 meses que moramos aqui nos states. Desde então tenho travado uma luta inglória comigo mesma.

A luta de aceitar a minha condição atual de Dona de Casa. Nossa esta palavra me assusta.

Dona de Casa é a minha mãe, que nasceu, cresceu e foi educada para isso. Seu maior sonho era ser esposa e mãe. Nesta ordem.

Eu não. Eu sempre trabalhei, corri atrás, queria conhecer o mundo, coisas novas, sair do quadrado (impulsionada por essa mesma mãe). Pensar diferente. Aprendi tudo que uma dona de casa deve saber, assim não preciso de ninguém e sei exigir tudo direitinho, mas nunca pensei em me transformar em uma.
Mas alguém vai perguntar: tá e daí?

Daí que para um mulher que tem este pensamento é muito difícil aceitar esta condição. Você se vê como uma pessoa que está passando por uma transição, que é passageiro, que logo logo tudo vai acabar e vou voltar a minha vida de antes. Ledo engano, nem sempre a vida responde rápido assim.

Aqui eu não me conformava em lavar, passar e cozinhar, fazer faxina, cuidar do jardim, das compras, contabilidade e no outro dia tudo de novo. Sempre pensei: isto não é para mim, não nasci para isso. Até gosto de fazer as coisas de casa, mas não como obrigação diária, mas sim como passatempo.

Achava que meu cérebro estava virando uma massa sem vida, ou com vida limitada. Não tenho nada contra quem se dedica ao lar, mas esta pessoa tem isto como objetivo, enquanto que eu não.

Lutava interiormente contra esta condição. Me aborrecia, chateava, brigava com todo mundo, vivia com dor de cabeça. Cada atividade que eu fazia era um suplício, tudo estava ruim e ainda podia contecer alguma coisa para piorar, e claro acontecia.
E quando me perguntavam então minha profissão? Resposta: Sou administradora de empresas e temporiariamente não estou trabalhando. Tola! Queria enganar a quem? Oh dilema!

Ainda não posso trabalhar aqui, nosso green card só deve sair no fim do ano e esta demora me deixava mais aflita a cada dia, pois um dos meus objetivos é produzir aqui neste país das oportunidades (hoje temos um visto de trabalho só para meu marido, o meu é de família). Voltar a ter renda própria, não depender de ninguém, garantir que posso me virar sozinha. Poder pagar alguém para me ajudar em casa. Isto vai acontecer é só uma questão de paciência. Não adianta me desesperar. Fácil falar, difícil viver.

O ponto onde quero chegar é o seguinte: Um dia resolvi assumir minha condição de dona de casa e a partir deste momento, muitos dos meu problemas desapareceram. Não estou mais com vergonha de assumir que sou esta trabalhadora incansável. Procurei tirar disto tudo o que tem de bom. Enquanto não volto a trabalhar, também não tenho chateações com horário e prazos a serem cumpridos. Posso pegar meu filho a qualquer hora e sair com ele para passear. Ou então posso sentar na sala e ficar vendo televisão.

Passei a distribuir melhor meu tempo, já que agora as tarefas não pesam tanto, também não morro se deixar de fazer alguma coisa naquele dia. O importante é eu me sentir bem. Chega de culpa por não ser uma criatura quenão traz renda para casa. Meu marido já se preocupa demais com isso. Quando eu puder vou voltar a contribuir e até lá vou continuar sendo dona de casa, mãe e esposa. Isto me libertou!

Finalmente descobri quem sou: uma mulher que se profissionalizou em administração de empresas, com ênfase em marketing de serviços, que hoje administra admiravelmente seu lar a vida do marido e do filho, que como todo ser humano normal tem seus problemas, ou seja, sou minha mãe com up-grade.



_________________________________________________________________________________ Texto de Cristiane A. Fetter

8 comentários:

Ana Cláudia Bessa disse...

Cris,

acho que todas nós passamos por estes questionamentos...risos...e é como uma roda gigante...altos e baixos, altos e baixos.
E o trabalho doméstico é muito rotineiro, previsível. Fazemos as coisas porque elas precisam ser feitas e não como tarefas de prazer e satisfação. Mas tem seu lado prazeiroso que é poder passar , como você mesma disse, momentos inrrecuperáveis com nossos filhos pequenos. Ser dona dos nossos horários e dos nossos compromissos. Sair para trabalhar, deve ser muito difícil também.
Enfim, os dois lados da moeda tem pontos de glória e inglória.
Apesar de tudo, eu acho que fizemos uma ótima escolha.
E é como você falou: questão de tempo.

Cristiane A. Fetter disse...

Olá, sou a Evellyn! disse...
Adorei seu texto! Vivo situação semelhante: vivia no RJ, muito bem empregada, quando meu marido foi transferido para Recife. Deixei tudo de lado para acompanhá-lo, mas muitas vezes essa situação "em casa" me incomoda. Já fiz cursos alternativos, caminhadas, ginástica, agora estou estudando pra concurso. O pior de tudo é ver quanto você estudou e batalhou para, no momento, ser mais uma das mulheres que estão em casa. Nada contra a opção, mas como você disse, nunca quis isso pra mim.
Veja um dos textos que já escrevi no meu blog sobre o assunto:
http://meumundoenadamais-evellyn.blogspot.com/2007/10/quando-crescer-serei-gente-grande.html
Beijos e boa semana

Cristiane A. Fetter disse...

Oi Evellyn, trouxe seu comentário para cá e assim posso respondê-lo aqui mesmo.

Você disse uma coisa muito interessante no seu texto, "não nasci para ser coadjuvante". Eu também não e os constrangimentos que você sente eu também passo por eles.
Só que aqui nos EUA é um pouco diferente, as pessoas me olham com inveja, pois se eu não preciso trabalhar é porque tenho muito money, risos, pelo menos é isso que o pessoal que me pergunta pensa.
E a história não é bem assim. Como a Ana Cláudia bem lembrou uma parte do meu texto, isto vai passar.
Tenho procurado muitas alternativas aqui, alguma coisa que me possibilitasse ficar mais tempo com meu filho. Apesar de que trabalhos de meio expediente são abundantes, só preciso estar com o Green Card em mãos e pelo andar da carruagem do Serviço de Imigração Americano, acho que isso não sai mais este ano, fazer o que.
Por isso relaxei e me aceitei como sou AGORA, mas não deixo de pensar em mudar.
Oh dilema!
Abraços as duas.

Rosinha disse...

Olá, Cris!
Muito bom o seu texto e parabéns por sua mudança de postura. Sim, porque os problemas podem se apresentar de diferentes formas para a gente: podem ser grandes se estamos nos sentindo pequenos, e pequenos se nos sentirmos fortes e capazes de superá-los.
Você demonstrou sabedoria ao se colocar forte diante de uma dificuldade, que, como vc disse, logo logo vai passar.
Estou torcendo por você.

Bjs!

Cami disse...

Cris,

o seu tema é bem atual pra mim, mesmo sem ter abandonado a vida profissional... Antes de me casar, mas já de casamento marcado, quase entrei em depressão só de pensar que teria que "dar conta de um lar". Achava (quase) um desperdício "terminar os meus dias assim". Trágico né??? Tentei mudar de atitude e estou me adaptando à nova vida... Me pego bem estressada às vezes, mas me sinto feliz por saber que meu tempo não está sendo desperdiçado, tem sido um constante aprendizado!!! Acho que meus pais me influenciaram tanto com essa coisa de ser independente (minha mãe tb é dona de casa) que acabei extremando a situação...

Cristiana Soares disse...

Aposto que vc é muito mais útil para o mundo como mãe do que como marketeira de serviços. Existe serviço maior e mais importante do que criar um cidadão?

Cristiane A. Fetter disse...

Oi Cristiana,
não existe serviço maior que criar um cidadão, mas para que ele seja bem criado, quem os cria também tem que estar bem e se sentir bem.
O meu questionamento foi quanto a ser dona de casa em tempo integral. Ser mãe em tempo integral a gente já é (pelo menos aquelas que escolherem ser).
Eu sempre achei discutível as mães que escolhem ficar em casa mas, mas que na realidade entregam a educação e os cuidados de seus filhos a babas ou outras pessoas.
Eu não quero deixar de ser mãe, mas voltar a ser mulher-profissional, não depender de NINGUÉM financeiramente.
Tenho cereteza que no futuro meu filho vai me agradecer por ter criado ele com uma cabeça que estava equilibrada.
Aí sim o servíco de criar um cidadão vai estar completo.
Obrigada pela visita.
Abraços

Geo disse...

Gosto muito do que escreve e da maneira como escreve. Que tal dedicar essa liberdade de tempo e escrever um livro sobre a vida de uma dona de casa brasileira, bem formada, morando em outro país e tentando educar seu filho para ser um cidadão de bem que recicla, educa, lê e se desenvolve? Será muito gratificante lê-lo.