sexta-feira, 2 de novembro de 2007

PIRATARIA - UM TESTEMUNHO

Pouca gente admite ser favorável ou, mais ainda, conivente com a tsunami de "pirataria" que assola nossa sociedade. Entretanto, muito menos gente ainda tem autoridade moral para afirmar que não adquire esses tais "produtos".

Há pouco tempo estive em uma aprazível cidade do oeste de Minas (cerca de 50 mil habitantes) onde pude constatar um fato incrível: Não existe na cidade NENHUM estabelecimento que venda CDs ou DVDs originais. Só há "piratas" à venda!

A verdadeira devastação que esta prática (criminosa) provoca na economia formal dificilmente pode ser avaliada por quem não tem algum tipo de ligação com a indústria da produção artístico-cultural.

Vou contar um fato acontecido comigo para ajudar a formar um juízo de valor.
Compositor de MPB nas horas vagas (letrista), tive oportunidade de ter um trabalho incluído num disco (ainda vinil) do cantor Reginaldo Rossi lá pelo fim dos anos 80. Nesta ocasião Reginaldo ainda era um artista "regional", muito conhecido e famoso no nordeste mas praticamente anônimo no resto do país. Uma das músicas deste disco o projetou nacionalmente: Garçon.

Tendo minha obra entrado no repertório, antes mesmo de lançado o disco, tive direito a receber um adiantamento da gravadora. Este adiantamento (advanced, no jargão próprio), é calculado tendo por base a vendagem média do artista. Na ocasião Reginaldo ultrapassava regularmente a casa dos cem mil (disco de ouro), portanto, meu advanced foi calculado nesta base.

Não sei precisar o quanto recebi (nem me lembro da moeda vigente), mas para uma idéia bem próxima, comprei, à vista, com este dinheiro, um freezer comercial. E sobrou dinheiro!
A partir daí, a cada seis meses, recebia um depósito através da Editora, que era proporcional às vendagens subsequentes. Lógico que esses depósitos jamais chegaram ao valor do "advanced", mas ajudavam no orçamento. O disco ganhou "platina" (250 mil cópias) Anos depois, já nos tempos de "pirataria", aproveitando a onda de sucesso nacional do cantor, a gravadora relançou o disco em CD. Aí então a marca de vendagem de Reginaldo (em vinil) já ultrapassara a casa do milhão!

Ganhei uma nota preta! É o que vocês estão pensando não? Pois bem, o CD (claro que o pirata) estava em todos os camelôs da cidade, e eu recebi, por direitos autorais, a fortuna de CINQUENTA E TANTOS REAIS, divididos em dois depósitos ao longo de dois anos!
Pirataria é isso!
_________________________________________________________________________________ Ivo Fontan

13 comentários:

Osc@r Luiz disse...

Oi Cristiane.

Abordo o tema da pirataria no meu post do Flainando na Web sobre "Tropa de Elite".
Se tiver a curiosidade fique à vontade.
Obrigado pela visita e pelo gentil comentário.
Um beijo e um bom final de semana!

Cristiane A. Fetter disse...

Obrigado Oscar por nos visitar.

Este é um assunto bem polêmino né Ivo? Eu não concordo com a pirataria, mas sei que muita gente pensa que se ela não existir muitos vão morrer de fome. Ou seja o buraco é mais embaixo.
Acho injusto se gastar tanto dinheiro no investimento e na produção de discos e filmes e eles seram "roubados" de seus autores e criadores, mas também acho um absurdo um cd ou dvd em lançamento no Brasil custar as vezes 30 reais ou mais.
Sei de algumas bandas que conseguem produzir o mesmo cd e vendê-los a 10 reais e uma delas é a Banda Calypso.
Para mim é muito injusto, mas sei que temos um grande trabalho para acabar com isso.
Vamos ver como fica.
Abraços Ivo.

Ivo Fontan disse...

Muitos bens de consumo, no Brasil, apresentam preços ao consumidor absurdos, se comparados a outros países, principalmente em razão de uma carga tributária também absurda. Isso é um fato.
Outra coisa é a CULTURA nacional de que consumir produtos "pirateados" não é crime. Ao contrário, é ESPERTEZA.
Quanto à banda Calypso, é a exceção que confirma a regra. Para uma banda Calypso bem sucedida na sua produção independente há uma verdadeira legião de músicos, compositores e cantores, estes sim, "morrendo de fome" porque não conseguem seu lugar ao sol.

denise disse...

É uma situação difícil de ser resolvida, pois, se as pessoas realmente pobres se conscientizarem e pararem de comprar os piratas, elas simplesmente não comprariam os originais, isto é fato. Por outro lado, os mais "afortunados" dispõem de uma parafernália para copiar as músicas em seus aparelhinhos e por aí vai. Quando olham os artistas no luxo, na riqueza, não imaginam que um cedezinho vá toná-los mais pobres. Estas são opiniões que ouço por aí. O último dvd original que comprei custou 45 reais. É realmente difícil. Será que é impossível conter os fabricantes? Vai chegar dias em que o artista vai produzir um cd popular e outro mais chique para atender a gregos e troianos.
beijo, menina

Ivo Fontan disse...

Toda essa argumentação envolvendo poder aquisitivo vai por terra quando lembramos um FATO:
Na era do VINIL não havia pirataria, pois a prensagem dos discos exigia uma verdadeira indústria. Nem por isso as pessoas mais pobres deixavam de adquirir. Aliás, o maior mercado de discos era a chamada "classe pobre"!
Essa história (pirataria) começou com a popularização das gravações em fita (o cassete), atingiu o auge com o CD e ultrapassou o limite do "descaramento" com a internet.
Portanto, meus caros defensores dos "pobres e oprimidos", o problema não é de classes sociais ou poder aquisitivo (embora a questão dos preços abusivos seja uma realidade). O problema é de CULTURA sim!
Quando a gente comete um CRIME que "todo mundo comete" a gente se auto-absolve!

Ana Cláudia Bessa disse...

Eu penso que primeiro temos que definir o que é pirataria.
Eu sou da época dos cassetes e se era pirataria a gente não considerava.

Hoje o preço absurdo dos Cd's e DVD's abrem espaço para o mercado paralelo.
Não concordo e não consumo mas o brasileiro tem essa cultura do esperto e sua baixa estima faz ele se deitar no conceito de que é um coitadinho e que compra o pirata porque não pode comprar o original, como se justificasse.

Acho que copiar como se fazia nos cassetes é como gravar do rádio...
Não sei se devemos considerar isso pirataria.

Pirataria é produzir cópias em grande volume, revender, tirar lucro comercial.

Sei lá...acho que o conceito de que toda a cópia é pirataria é bastante interessante para estes artistas que não lutam pela redução do preço do produto pelas gravadoras.
Eu não consumo pirata mas só compro CD e DVD, salvo raríssimas excessões, em promoção, Até 30 reais, eu ainda considero a possibilidade, dependendo do DVD).

50 reais eu raríssimamente dou(mas já dei).
Prefiro escolher outro tipo de produto ou de presente, se for o caso.

Não gosto de pensar assim, ou de agir porque acho a arte fundamental para nossa formação, Mas o custo não permite diante de outras necessidades que temos.


E acho uma pena que os artistas sejam explorados também pelas gravadoras. Ou alguém acredita que a maior parte do bolo vai para o artista?

Isso também não é pirataria?

Ana Cláudia Bessa disse...

Outro coisa que lembrei: fomos semana passada, depois de 6 meses sem ir ao cinema, ver TROPA DE ELITE.

Sobre o filme, ainda não escrevi, mas merece um post.
sobre o preço da entrada do cinema:
28 reais, duas pessoas.

NÃO DÁ , NÉ?

Não justifica, mas explica quem abre margem prá pirataria. Ou a gente acha, ingenuamente, que quem ganha menos de 3 salários mínimos, vai ao cinema?
Eu acho extorsivo o preço do cinema.
Eu acho extorsivo o preço de um DVD.

O brasileiro não pode incentivar a pirataria mas a verdade é que a maioria não está nem aí, quer mais é ver a cópia pirata, e se conseguir, de graça.

Geo disse...

Na verdade, a pirataria não gera empregos, ela transfere o trabalho formal para o informal. Se não tivéssemos os camelôs, teríamos que comprar nas lojas. As empresas contratariam mais vendedores, as gravadoras e distribuidoras mais trabalhadores, mais propagandas seriam feitas, mais programas de rádio, etc. Trocamos um trabalho digno por um contrabando e, trocamos CDs e DVDs bons por outros descartáveis. Diante de tanta pirataria, quem compra o original paga o preço por quem comprou o pirata e o mercado se afunda cada vez mais. Não sei como podemos parar isso.

Ivo Fontan disse...

Como parar eu não sei (e até acredito que não há como), mas eu faço a minha parte. Ninguém jamais me viu num "camelódromo" ou equivalente.
Minto. Compro sim, coisas em ambulantes: balas e doces!

Milton Fetter disse...

Estou entrando tarde neste tema, mas uma coisa me chamou a atenção : com a atual tecnologia digital, a pirataria prolifera, enquanto que na era do vinil, era bem mais difícil. Não existe desculpa: pirataria, como disse o Ivo, é pura esperteza de quem quer ganhar fácil. Sob o argumento falso de querer levar a obra ao acesso do povo, na realidade a pirataria prejudica diretamente milhares de pessoas envolvidas na produção da obra e prejudica a sociedade como um todo. E isto não é brincadeira, mas um caso sério. Outra coisa, poucas musicas chegaram ao patamar do conhecimento público quanto "Garçom" do Reginaldo Rossi. O fato de um dos autores ( Ivo ) ter ganho míseros R$ 50 é o retrato fiel de como funciona o nosso país !
Mas, tudo bem. Ivo, eu tenho uma proposta : me envia uma letra e eu te mando uma melodia. Quem sabe??

Ivo Fontan disse...

Caro Milton
Não sou autor da música em questão ("Garçon"). Minha música é uma das outras onze do "bolachão". Acontece que o "Garçon" puxou as vendas, e quem comprou levou, querendo ou não, a minha junto (rs).
A questão importante aí é a seguinte: Para mim isso representou "apenas" uma raiva muito grande da tal da pirataria e um afastamento do mundo da criação artística. Não teve mais consequências porque, como eu disse no texto, eu sou um compositor "nas horas vagas", ou seja, não vivo disso.
O problema é que existe uma verdadeira legião de "artistas", muitos deles de enorme talento, que tem como MEIO DE VIDA a música (composição, interpretação etc. Esses estão ferrados, coitados!
Quanto ao convite para "parceria", tamos aí! Mas sem pretensões comerciais, claro!

Isabela garcia disse...

Acho que o debate se esqueceu dos outros produtos pirateados como os programas de software.
Quem de nós tem em casa o WINDOWS original, comprado na loja direitinho?

alvaro disse...

Por isso é que eu acho que pirataria é caraterística de comércio de produto falsificado. Quando copiamos um filme da TV, um software de um amigo, uma xerox de um trecho de um livro, um cd ou DVD da locadora ou de um amigo para uso doméstico, isso não carateriza falsificação, tampouco pirataria.