quinta-feira, 1 de novembro de 2007

A sociedade e o aborto

Lendo um post da Denise do blog Síndrome de Estocolmo que fala sobre o aborto , resolvi levantar a questão aqui transcrevendo parte do comentário que fiz para ela.

No post, ela fala das mães que abandonam seus filhos com clara intenção de matá-los depois de tentar sucessivos abortos em vão.

Se não, seria melhor legalizar o aborto e menos hipócrita, visto que as mulheres de classes provilegiadas têm acesso ao aborto de forma ilegal (porém segura porque o dinheiro compra segurança) e todo mundo finge que não vê. E ela tem razão. Não podemos ser hipócritas.

E agora temos a declaração do governador do Rio, Sérgio Cabral, dizendo que as classes mais pobres são uma fábrica de marginais e que o aborto deveria ser legalizado para evitar esse mal.

Esse assunto para mim é muito ambíguo.
Para mim a vida acontece na concepção. Ponto.
Aborto é matar uma vida.
Contudo, acho que jogar no rio depois de nascer, é também aborto. Só muda a hora. E seria hipócrita de minha parte, fechar os olhos para essa dura realidade.

A falta de condições econômicas, sociais e emocionais, dão sim, margem para que as crianças e jovens entrem no tráfico de drogas. Não podemos negar. Contudo, com relação à (infeliz)declaração do Sérgio Cabral, só posso concluir que ele está transferindo para as mulheres a responsabilidade governamental que é prover saúde e educação para todos. A "fábrica de marginais", é, na verdade, mantida pelo governo que foge ás suas responsabilidades sociais.

Existem de fato, dois Brasis. Mas eu também entendo que quando as pessoas querem se divertir, encontram um jeito, informação, dinheiro. Taí as drogas que provam isso.
Será que realmente essas mulheres engravidaram por falta de informação? Será que elas não tem capacidade de buscar outra alternativa?
Abandona na porta de alguém!
Que nível de crueldade essas mulheres vão poder chegar para justificarmos apenas como mulheres sem oportunidades? Deixar uma criança numa floresta sendo picada ou até comida viva por algum animal? Isso tem justificativa?
Porque ela, a mãe, não se jogou no rio?
Não se atirou de uma ponte?

Ah...é mais fácil abandonar dentro de um saco plástico o outro ser. Não é ela que vai estar sufocada, sem entender nada, sendo picada, mordida, desidratada...

Os homens também tem sua parcela de culpa quando, consciente da gravidez, não dão assistência.

E essas mulheres deviam ser obrigadas a informar se o homem sabia, e ainda submeter a um teste de DNA para comprovar a paternidade. Afinal, ninguém faz filho de forma autônoma. E se o filho(a) era dele, ele ainda deve provar que não sabia. E ainda assim ser punido por ter relação sem proteção, se for o caso.
Afinal, dirigir bêbado, deixar seu cachorro sem coleira e transar sem proteção e a criança morrer como nestes casos é, para mim, crime doloso. Com clara intenção de matar.

Mas há que se ponderar que mulheres de classes melhores abortam sem problemas. Esse é o outro Brasil do aborto seguro e praticável. Ou então, aceitam o filho porque tem condições financeiras para isso.

Não sei se a legalização do aborto resolve a questão. A criança não será mais atirada no rio?
Até que idade da gestação o aborto será permitido?
E se depois dessa idade, a mulher mudar de idéia?
Vai abortar clandestinamente, ou vai jogar no rio da mesma forma?

Será que a raiz do problema é legalizar o aborto ou essa questão é mais profunda, e chama-se Educação?

Foto: fonte blog Sindrome de Estocolmo

Leia mais:

A igreja e o aborto:

http://ofuturodopresente.blogspot.com/2007/05/igreja-o-aborto-etc.html


__________________________________________________________________________________ Texto de Ana Cláudia Bessa

9 comentários:

Mariana veloso disse...

Falaste muito bem.
Eu, pela educação que tive, jamais cometeria um aborto.
A educação é sim a raiz da questão.

Geo disse...

Ana, sou a favor de legalizar o aborto, mas não acho que resolveria o nosso problema. Sou a favor porque quero que gere estatística e se abra questionamento sobre o problema.

Em primeiro lugar, os marginais estão em todas as classes, porém os ricos são brancos e usam roupas de marca.

Os pais não tem tempo de ficar com seus filhos e, por ignorância, fazem ainda mais filhos. Esses filhos crescem sem noção do certo ou errado e fazem mais filhos que terão ainda menos assitência. Uma bola de neve que gera pessoas, algumas vezes cheias de estudo, porém sem nenhum valor sobre a família ou a vida.
Bom feriado e bom final de semana.

Cristiane A. Fetter disse...

Ana eu concordo com você e a Mariana, a educação é a base de tudo.
Ainda temos muitas adolescentes que não tem a mínima idéia de como prevenir uma gravidez, quiçá uma doença sexualmente transmissível.
Sem informação, sem solução.
Acredito que quando isso acontecer a discussão sobre o aborto será mais fácil.
Eu não concordo com ele, penso como você, o espermatozóide encontrou com o óvulo, então para mim é vida.
Mas me parece que o governo está distribuindo, ou pelo menos começando, a distribuir a pílula do dia seguinte que impede que o espermatozóide se encontre com o óvulo, mas para mim continua uma questão, se tomou a pílula é porque transou sem camisinha.
O filho pode se o melhor resultado desta relação e a pior? aids, gonorréia, cancro entre outros?
É complexo.
Abraços

Suzana disse...

Oi, Ana;

Vivi essa situação de perto quando engravidei pela segunda vez. Foi um "acidente" (e ponho entre aspas porque jamais poderia dizer que a filha maravilhosa que tenho foi um "acidente") e meu ex-marido fez de tudo para que eu abortasse.
É sim muito complexo o assunto, mas creio que vai um pouco o que eu digo às minhas filhas: você pode tudo - até matar uma pessoa na rua por nada - mas não deve, porque o que você fizer trará conseqüências e você terá que arcar com ela - de uma pena longa numa cadeia imunda até uma dor na alma implacável.
O que muita gente confunde é sobre ser a favor do aborto ou ser a favor de uma lei que permita o aborto - ou seja, a favor do livre-arbítrio. Tive discussões homéricas com uma pessoa da família que dizia que os políticos católicos deveriam intervir, esquecendo que o estado é laico e que há mulheres não-católicas que querem poder decidir, por si mesmas, se querem ou não fazer um aborto. É uma escolha pessoal, que envolve infinitos questionamentos e que, por difícil, deveria caber à mãe, em parceria com o pai, e não através da letra fria da lei, influenciada por homens que vivem (ao pé da letra) no século retrasado e por padres que falam de família, procriação, sexo e separação sem jamais saberem, na prática, o que é isso.
Sou a favor da lei que legaliza o aborto até o terceiro mês, com assistência médica, psicológica e legal. Sou a favor de a mulher poder decidir se quer ou não fazer um aborto. O julgamento desse ato ficará à cargo dela, de sua consciência e da fé que ela professe ou não Eu não fiz e jamais faria.
Bjs

Suzana

Ana Cláudia Bessa disse...

" Sou a favor de a mulher poder decidir se quer ou não fazer um aborto. O julgamento desse ato ficará à cargo dela, de sua consciência e da fé que ela professe ou não Eu não fiz e jamais faria."

Você disse algo muito importante e do qual eu penso no direito que EU tenho em achar que outra pessoa deve ou não fazer um aborto?

Eu não faria. Mas ser contra, é outra coisa...né?

Contudo minha preocupação é que o estado com certeza, não dará o apoio psicológico, médico, legal e emocional necessário.

É uma discusão muito profunda...
Será que a legalização do aborto não terá o mesmo fim da pílula do dia seguinte onde muitas mulheres/adolescentes transam sem proteção, resguardadas por essa "ferramenta" ?

Milton Fetter disse...

Ana, a questão do aborto, na minha visão, nada tem a ver com o governo. Em países Europeus, onde o estado provê tudo o que uma pessoa pode necessitar para viver, o aborto é legalizado e pago pelo estado. Muitas sociedades, inclusive a nossa, tem restrições ao aborto apenas por motivos religiosos. Mas, também no nosso país, encontramos diversas ambiguidades religiosas. Como pode uma pessoa ser católica e mãe de santo ao mesmo tempo ?
A questão, ainda sob a minha ótica, resume-se ao direito ou não da mulher ( infelizmente sózinha nesta hora, apesar de um filho precisar do pai na hora de ser gerado ) poder decidir se vai ou não ter este filho. Como filosofia de vida, esta é uma discussão intensa. Eu sou a favor do aborto sim sob a ótica filosófica. Na prática, o que vemos no nosso país é que lamentalvelmente a pratica do aborto acontece de uma forma ou de outra, na maioria das vezes em situações extremas. É como tapar o sol com a peneira. Sendo ilegal, ainda assim acontece sob as piores condições. À mulheres de melhor condição social, o aborto pode ser feito, escondido, sob a proteção e o conforto que o dinheiro pode comprar. Entretanto, para aquelas mulheres que não tem tanta sorte financeira, o aborto ainda assim acontece com consequencias catastróficas. É como a pena de morte : não existe legalmente, mas se você nascer pobre, fatalmente uma boa parte da população vai morrer cedo devido a "doenças da sociedade"... Se o aborto fosse legalizado no sistema de saúde público, o índice de mortes e/ou complicações seria drasticamente reduzido. O sistema público faz ligação de trompas e o índice de natalidade do país caiu muito nas ultimas décadas. Portanto, uma medida destas no sistema público teria alto impacto social. Concordo plenamente que educação é fundamental. Mas eu pergunto : quantas mortes ainda vamos ter que aturar até que a população seja devidamente educada ? Lembrem: em todos os países onde o nível de educação é alto,o aborto é legalizado e praticado livremente. No meu entender, a legalização do aborto agora serviria mais como uma medida a curto prazo para evitar mortes horríveis de mulheres sem muita opção. Somos uma sociedade de caráter bem liberal. Acredito que, em breve, algo neste sentido vai acabar acontecendo, apesar dos comentários infelizes de alguns políticos.

Ana Cláudia Bessa disse...

Acho que isso seria o ideal, Milton, educação e aborto legalizado como nos países europeus.

Desta forma, sim, as pessoas estariam decidindo por este caminho por responsabilidade única e exclusiva de suas próprias e conscientes decisões. E fazendo isso de forma segura e assistida.

Aí, não há como ser contra, afinal, isso é o que chamamos de livre-arbítrio.

Drica disse...

1° Adorei tua visita em meu blog, volte sempre!
Sobre o post: aborto pra mim sempre foi uma questão complicada, por um lado penso q temos o direito a escolha, o corpo é nosso, a vida é nossa, mas agora com quase trinta anos( e sem nenhum filho ainda), começo a pensar diferente, pq todo mundo sabe como se prevenir, como se cuidar, camisinha os postos d saude dao de graça, anticoncepcional tbm, e pq as pessoas nao se cuidam? sou professora e já estou cansada d ver tantas alunas grávidas desde cedo, com 14/15 anos...e não é falta d informação, parece q é tao "normal"...até pq a maioria delas tem a mae q fica cuidando do bebê, penso q se elas nao pensam em suas vidas e nao só elas me irrito profundamente com os meninos q não usam camisinha, poxa a menina nao faz sozinha, parece q nem ligam para o q fazem, mas voltando, penso nas crianças q serão geradas, q futuro terão, pq a maioria destes "pais" são imaturos, nao trabalham, nao tem estudo e mtas vezes até param d estudar.... fico triste sempre q vejo uma situacao destas, adoro meus alunos e já chorei mto em função disto, pelo fato d nao pensarem, meninas e meninos q parecem q estao vivendo sem almejar nada, sem pensar no futuro e sem objetivos... não é pelo fato d nao terem dinheiro, é mtas vezes, por acomodação...isto é triste! Aborto em alguns casos acho certo: estupro, risco d morte da mãe e tal, mas no caso d quem fez sem pensar, só pq nao se cuidou é cruel, é mta irresponsabilidade mesmo! eita assunto complicado! :(

Ana Cláudia Bessa disse...

Pois é, Drica.

Eu sei como você se sente pois eu também me sinto em cima do muro com relação a este assunto.
Essas gravidezes são de fato indesejadas? Será que de fato acontecem por falta de informação?
Será que não rola um arrependimento póstumo e o aborto não é fuga menos difícil do que encarar a responsabilidade de se criar uma criança?
Será que não é melhor abortar do que colocar uma criança no mundo sem poder ( ou querer) dar a elas recursos dignos de sobrevivência?
E o estado, qual a sua responsabilidade nisso tudo?
Será o aborto, também pro estado uma saída mais fácil do que dar o suporte social que ele é obrigado?

Será que nós temos o direito de ser contra a uma decisão que não envolve nosso corpo?

Por isso vejo que se fôssemos educados poderíamos mais facilmente usufruir de um aborto legalizado. Só assim as pessoas teriam discernimeto a tomar essa decisão de forma mais saúdável, amparada e consciente.
Aí, sim, o corpo é dela e ela é que vai assumir, ciente, suas responbilidades ante suas decisões.

Complicado...